Opinião

Olhos bem abertos

Há uma guerra antes e depois de Bucha. Como aconteceu quando, em 1995, as tropas neerlandesas olharam para o lado enquanto as tropas sérvias cometiam o massacre de Srebrenica.

Está claro que o que aconteceu na pequena cidade da Ucrânia pode levar à problemática de uma intervenção direta ou não do Ocidente na guerra. Na sua retirada, os russos semearam o terror com cadáveres de civis abandonados nas estradas ou nos prédios, alguns deles com as mãos amarradas ou com tiros na cabeça, em potenciais crimes de guerra.

Perante estas imagens, sabemos que um envolvimento da Europa e da NATO neste conflito não seria o aconselhável, porque levaria a uma escalada com um fim imprevisível. Mas a "realpolitik" alemã (e até italiana) tem de acabar. Do que falamos? Das contínuas compras de gás e de petróleo destes dois países à Rússia e que ajudam a estabilizar a sua economia e a libertar recursos para a guerra. A Alemanha anunciou, logo que o conflito estalou, um reforço de 100 mil milhões de euros para a sua Defesa. Ironicamente, para além do pedido de ajuda aos Estados Unidos na compra de gás, os alemães ainda não têm um plano bem definido para acabar com a gasodependência russa.

PUB

A União Europeia quer agora ir mais longe nas sanções e, entre elas, a mais extrema: cortar as importações de energia da Rússia. É que Putin enche os cofres, todos os dias, com 700 milhões de euros vindos da venda de combustíveis fósseis. O que aconteceu em Bucha pode mudar a opinião de vários estados-membros, principalmente a mais reticente Alemanha. Enquanto isso, para além do horror que deixa para trás, a retirada russa é uma realidade. O cerco a Kiev enfraqueceu e até há uma contraofensiva ucraniana, como atesta o ataque com mísseis ar-terra contra os depósitos de gasolina de Belgorod, em território russo, a 40 quilómetros da fronteira. O ritmo desta guerra continua a ser um verdadeiro mistério. As pequenas vitórias ucranianas têm de ser relativizadas, especialmente quando o agressor é o terceiro maior Exército do Mundo.

*Editor-executivo

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG