Opinião

"Sou idoso, não idiota"

"Sou idoso, não idiota"

A geração que ajudou a mudar Portugal de uma ditadura para uma democracia já leva dois anos a sucumbir a uma pandemia que parece não ter fim. Os idosos são os que mais sofrem e os que mais esquecemos, justo agora que estamos em plena revolução tecnológica.

Hoje tudo está rodeado de clics, passwords, PIN, PUK, de SMS cheio de códigos que, às vezes é difícil acompanhar para quem sempre viveu na era analógica. Tudo isto para falar dos bancos. O silencioso encerramento dos balcões é uma punhalada para os avós, que precisam de ajuda constante. Qualquer relação com o banco está ligada a uma aplicação no telemóvel ou numa caixa Multibanco, com uma quantidade de instruções que dificilmente manejam e em que se orientam por recados escritos em papel pelos seus filhos ou netos. Basta passar por qualquer sucursal para encontrar um velhinho ou velhinha a implorar auxílio ao primeiro que passa para o ajudar no universo digital. Não se importam de revelar os números a um estranho, desde que lhes expliquem por que uma EDP ou uma Meo decidiram sobrecarregá-los na fatura. Em Espanha, o valenciano Carlos Laorden, de 78 anos, urologista e cirurgião, lançou uma petição com o título "Sou idoso, mas não idiota". Isto porque se fartou da forma como o seu banco o tratava. Cada vez que necessitava de ajuda a resposta do outro lado era: "venha com um familiar que será mais rápido", ou "peça ajuda aos seus filhos", ou ainda "se vem ao balcão pode apanhar o vírus". Perante esta situação, resolveu agir. E, ironicamente, de uma forma digital: publicou uma petição no Change.org a pedir atenção humana nos bancos. Três semanas depois, tornou-se viral no Twitter com milhares de comentários. "O que peço é respeito. Se os bancos ganham milhares de milhões e quando as coisas correm mal são os nossos impostos que pagam, creio que não lhes custaria assim tanto ter uma atenção pessoal connosco", disse Laorden. E com razão. O forte e rápido apoio a esta iniciativa evidencia que existe uma parte da sociedade que não exige nada de subversivo. Apenas não quer ser deixada de lado pelos bancos quando se trata de captar as suas pequenas poupanças.

*Editor-executivo

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