Quando o tempo de espera para ser atendido num hospital, no serviço de urgência, ultrapassa as 20 horas, estamos num cenário pré-apocalítico, numa espécie de "fique doente só amanhã, porque hoje não temos vaga". Há neste número mais que uma tristeza: o SNS não é capaz de ter e cumprir escalas de serviço adequadas em hospitais centrais, nomeadamente no Amadora-Sintra; há demasiadas pessoas doentes em simultâneo; os utentes não têm dinheiro para recorrer ao privado e esperam quase um dia, mais de 20 horas, para serem atendidos. Isto, sim, é uma doença, e crónica, dos tempos de inverno. Uma doença estrutural que se atenua com vacinas, mas que se alastra quando se sabe desde há anos quando e como mais vai atacar. O retrato da noite daquele hospital de Lisboa é para lá de catastrófico: um médico para 179 doentes na urgência, "com mais de 60 doentes internados" entre a meia-noite de sexta, dia 2 de janeiro, e as 8 horas de sábado. O sindicato dos médicos que denuncia o caso e revela que a chefe e subchefe da equipa de urgência demitiram-se face ao exposto fala numa "situação absolutamente inaceitável". Os doentes muito urgentes, com pulseira laranja, esperaram mais de seis horas, e os que foram triados com pulseira amarela, mais de 20 horas. Isto, sim, é começar o ano com as mãos na cabeça. Além da "grave incapacidade de gestão", o que já não é pouco, o sindicato alerta para a "degradação progressiva e intencional do SNS", descrevendo uma ação deliberada do Governo para transferir os cuidados da saúde para o setor privado, onde basicamente são quatro os grandes grupos a deter dois terços da oferta fora dos hospitais públicos. Esta análise à concentração foi feita pela Entidade Reguladora da Saúde, que alerta para "preços mais elevados" e uma "menor diversidade de oferta para os utentes".
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