Quando se comemoram trinta anos sobre a classificação do Centro Histórico do Porto como Património da Humanidade, vale a pena reflectir sobre as circunstâncias que para tal contribuíram. E evocar factos e personalidades.
Se, para os crentes, o acontecimento resultou de verdadeiro milagre, para os outros deveu-se a um conjunto de esforços que evitaram a implosão do melhor do Burgo e conduziram ao esplendor de um bairro qualificado.
Porque o Barredo (e o Bairro da Sé) eram espaços comatosos, que o Estado Novo destinaria à demolição para que a vergonha fosse ocultada. Em 1962, o Plano Director da Cidade previa a sua substituição por um Silo-Auto e até um Palácio de Congressos. Tudo abaixo (como já acontecera noutros locais). Felizmente, nos limites da catástrofe, o presidente da Câmara, Pinheiro Torres, entendeu que o assunto devia ser revisto com outro olhar e nova concepção urbanística. O arquiteto Fernando Távora, numa operação que integrava Viana de Lima, Octávio Filgueiras e outros, impulsionaria o levantamento, ao pormenor, casa a casa, da situação existente.
O resultado foi um Plano da Zona do Barredo, prevendo a sua recuperação arquitectónica e social, que teria execução no pós 25 de Abril, com a criação do CRUARB e o decisivo apoio do Nuno Portas (secretário de Estado da Habitação). E tudo sucedeu conforme os interesses da cidade, com uma visão do futuro que culminaria na classificação como Património Mundial. Pelo que significou de inteligência e abnegação dos intervenientes deste processo e do próprio CRUARB, não ficaria mal a celebração pública de quanto lhes devemos.
O autor escreve segundo a antiga ortografia

