A principal surpresa e o facto mais notável da noite eleitoral de 30 de janeiro foi a maioria absoluta do PS. De facto, o PS teve a capacidade de conquistar o voto útil da extrema-esquerda, reduzindo o BE e a CDU a escassos 4% cada um, e capitalizando em seu proveito o ónus da queda do Governo e das eleições antecipadas, assim como a aposta dos portugueses na estabilidade da governação de Portugal.
António Costa vai liderar pela primeira vez um Governo assente numa maioria absoluta na Assembleia da República, com as devidas condições políticas para ter sucesso no combate à pandemia, na recuperação económica do país e na capacitação do Estado para uma muito melhor gestão pública.
Do outro lado do espectro político, o PSD tem uma derrota expressiva e não conseguiu conquistar o voto útil, nem parar as dinâmicas de forte crescimento que o Chega e a IL têm vindo a registar nos últimos tempos, sendo agora a terceira e a quarta força política em Portugal, registando-se o fim da vida útil do CDS como ia sendo expectável.
Rui Rio não conseguiu afirmar o PSD como uma alternativa ganhadora e assumiu a sua saída com a maioria absoluta do PS, mas é muito importante para o futuro do PSD que o faça com a honra que merece, com o cuidado necessário para que um novo ciclo de vida se abra no PSD após uma reflexão profunda e séria, e não com a tradicional discussão vertiginosa sobre o atual e o próximo líder.
Com a maioria absoluta do PS abre-se um tempo novo de governação com estabilidade, com um Governo que se quer mais pequeno e eficiente, sem sobreposições de funções nem disputas de poder internas, determinado e com capacidade de decisão.
Com o PSD abre-se um tempo de reflexão profunda para se poderem tomar decisões que sejam construtoras de um novo ciclo, num partido que há muito tem urgência de paz interna e de profunda remodelação organizacional e estrutural, política, de mensagem, de imagem e de comunicação, também com novos protagonistas.
Portugal vai deixar de "geringonçar", o que é fundamental para que haja mais e melhor governação, capacidade de fazer reformas relevantes, algumas das quais são de capital importância para que possamos aproveitar a 100% os 52 milhões de euros de Fundos Comunitários nesta década, e para que possamos crescer nas condições e na qualidade de vida dos portugueses.
* Presidente da Câmara de Aveiro
