29 de janeiro de 2024, 14.28 horas (12.28 em Portugal), um carro Kia Picanto preto com dois adultos e cinco crianças pára na rotunda de Fares, em Tel al-Hawa, Sudoeste de Gaza.
À sua frente, estático, denso, da cor da camuflagem industrial cinzento-sinai, está um tanque Merkava IV dos "Rompedores" da Vampire Empire Company, nome de guerra do 52.° Batalhão Blindado das IDF, forças de defesa de Israel. O tanque, uma massa de aço de 65 toneladas e 9 metros de comprimento, incluindo o canhão, está a 13 metros do microcarro - uma proximidade obscena: o manobrador da metralhadora consegue ver a cor dos olhos dos ocupantes do Kia. De repente, como o rugido de um tecido de metal a rasgar, ouve-se uma descarga de 64 tiros de metralhadora.
Foi Layan, de 15 anos, quem gritou primeiro. Estava ao telefone com os voluntários do Crescente Vermelho Palestiniano. "Eles estão a disparar contra nós. O tanque está mesmo aqui. Venham buscar-nos. Venham, por favor".
Layan morreu imediatamente. Como o pai, Bashar (44 anos), a mãe, Inas (34), os irmãos, Sana (13), Raghad (12) e Mohammed (11). Mas uma criança, a sétima ocupante do carro, Hind, de seis anos, sobreviveu. E durante três horas, com o estático tanque cavernoso à sua frente - e o tanque ainda há de disparar mais 271 balas -, Hind está ao telefone com os voluntários do Crescente Vermelho Palestiniano. É o que relata "A voz de Hind Rajab", filme candidato aos Oscars que reencena, usando a gravação da voz real de Hind, a sua autópsia em carne viva.
A mente infantil de Hind não sabe processar o que está a ver: "Sim, eles estão aqui no carro, estão a dormir". Sozinha, rodeada pelos cadáveres dos primos e dos tios, Hind implora ao telefone. "Venham buscar-me. Tenho tanto medo. Eles não se mexem. O tanque está ali. Por favor, não desligues". Num detalhe excruciante de pureza, ela sussurra: "Não me estou a mexer. Não quero sujar a camisola para não dar trabalho à minha mãe".
A eternidade rebenta na escuridão. Às 18 horas, num espasmo logístico assassino, a ambulância do Crescente Vermelho é autorizada pelas IDF a resgatar Hind e avançar. Mas minutos depois - e ouvimos o som da concussão absoluta que desloca o próprio ar da sala de cinema - a ambulância é pulverizada por um projétil de 120 mm disparado pelo tanque, incinerando instantaneamente os paramédicos palestinianos Yousuf e Ahmed.
Doze dias depois, o batalhão dos "Rompedores" das IDF deixou o local, cimentando o extermínio: o Kia tinha 335 buracos de balas.
Junto do corpo de Hind estava um lápis, um caderno com desenhos, uma mochila cor de rosa aberta e vazia e uma coroa feita de papel. "Estou sozinha. Já é de noite. Tenho muito medo do escuro. Vens buscar-me? Vens buscar-me, por favor?".
