Fausto partiu. Um dia depois da vitória da extrema-direita na primeira volta das eleições em França. No rescaldo do desolador debate que aproximou Trump ainda mais da vitória à presidência dos EUA. Na semana em que morreram seis pessoas (mulheres e crianças) em menos de vinte e quatro horas vítimas de violência doméstica em Espanha. No mesmo dia em que Cláudia Simões foi condenada a pena suspensa por morder o polícia que a imobilizou por estrangulamento e lhe deixou a cara desfigurada. Enquanto vemos em direto o genocídio em Gaza. Fausto partiu.
Ora, se estes acontecimentos nada têm a ver com a sua partida, que pertence à insondável ordem da vida e da morte, não posso deixar de pensar que, no momento em que mais precisamos dos magos, dos poetas e dos trovadores, para reequilibrar a beleza do mundo, perdemos um dos seus mestres.
Como é que se sobrevive a tanta realidade sem alguma dose de encantamento? Como é que se digere tanta arbitrariedade sem as vozes que dotam o desamparo da vida de algum sentido? Como vislumbrar o rumo no meio da escuridão, sem uma mão que nos guie por entre as trevas, que nos afague as pisaduras? Sem uma palavra que nos puxe pela esperança, que nos alimente as utopias e nos convoque os sentidos para a luz?
É que para gente como eu, que não tem fé no divino, mas insiste em depositá-la no humano, a morte de um mago, de um poeta, de um trovador e de um mestre como Fausto Bordalo Dias é como o incêndio da biblioteca de Alexandria, é como o desmatamento da Amazónia, é como o degelo dos glaciares e a extinção de todas as aves do Mundo.
Foi ele que nos ensinou que a Beleza se escreve com maiúscula desde “Por este rio acima” e, até hoje, mal-habituados, demo-la por garantida. Aprendemos que se podia tudo: misturar música tradicional portuguesa com psicadelismo, espiritualidade com erotismo, ironia com epopeia, ancestralidade com experimentalismo, sempre com um grande sentido ético, de quem tem os pés no mundo e por ele cria, com fraternidade.
Ficava muito tempo, em miúda, a contemplar as ilustrações das capas dos seus vinis.
Decorei as suas letras para o espetáculo da escola e, mesmo que as professoras tivessem censurado as partes “picantes”, nunca consegui cantar a versão pudica e entoei à revelia “mergulhar no teu corpo entre quatro paredes” e todas os outros versos, porque mesmo não os entendendo, intuía que não podiam ser de outra forma. Emocionei-me muito quando vi os Três Cantos e confirmei que, por muito que amasse o Sérgio e o Zé Mário, a voz de Fausto sempre foi a mais bela da sua geração. E, hoje, que estou triste pela sua partida, agarro-me à ideia de que os magos, os poetas, os trovadores e os mestres nunca morrem, pelo que nos deixam de exemplo e de arte, combustível para os tempos mais duros. Agarro-me à certeza de que mesmo que tudo seja treva, cada vez que soar “Lembra-me um sonho lindo” em qualquer parte deste velho mundo, a Beleza inundará o tempo novamente.

