
Em 2017 foi aprovada a lei que obrigava as escolas a terem, pelo menos, uma opção vegetariana no menu. Não só para responder aos alunos que adotam esse regime alimentar como também para promover a sustentabilidade junto da restante comunidade escolar. Esta semana, a Câmara Municipal de Lisboa olhou para isto, cheirou e mandou para trás. A partir de janeiro do próximo ano, alunos de escolas públicas que queiram papar refeições vegetarianas não podem simplesmente chegar à dona Sandra e apontar para o tofu à Brás: têm de fazer um requerimento. E é bem pensado porque estamos em Portugal e, como sabemos, tudo o que é burocrático funciona lindamente. Pede-se o requerimento, é indeferido porque falta o anexo B, volta-se a meter a papelada, afinal é preciso o registo criminal atualizado, regressa-se à secretaria e, quando finalmente está tudo em conformidade, o relvado do campo da bola está aparado e o aluno já está cheio.
Não se vai poder chegar a uma cantina em Lisboa e escolher pontualmente uma refeição vegetariana e a justificação é a do desperdício alimentar. Ora, eu não sei como funcionam agora as cantinas, mas eu lembro-me de que, no meu tempo, quando o prato do dia era um magnífico esparguete à bolonhesa e uma pessoa tinha o azar do professor - mesmo em cima do toque para almoço - se lembrar de fazer extensas considerações finais sobre o excerto d'"Os lusíadas" que queria que trouxéssemos decorado na próxima aula, chegávamos à cantina e acabávamos a comer os filetes de pescada que bem nos lixávamos. Saíssemos mais cedo para a próxima. E isto devia continuar a ser assim: promovia novas experiências alimentares e ensinava-nos logo que a vida não é justa. A verdade é que esta lei ainda está a tentar ser implementada como deve ser, dado que, em muitas cantinas públicas, ainda se exige que essa refeição seja pedida com um ano de antecedência para os serviços estarem prevenidos. Ora, como é que se decide com um ano de antecedência o que se quer comer, valha-me Deus? Que pressão é esta que estamos a incutir nos nossos jovens? Já não basta ter de escolher um agrupamento e um curso numa idade em que ainda nem sequer sabemos se queremos realmente casar com o Justin Bieber e já querem que saibamos o que é que nos vai apetecer petiscar no próximo ano letivo? E depois não queremos que os nossos jovens andem por aí com crises de ansiedade e a seguir youtubers estúpidos que lhes digam o que é certo e errado.
Está mais que provado que existe uma relação entre a alimentação dos alunos e o seu aproveitamento escolar, logo a aposta na diversidade e qualidade nutricional na oferta é fundamental. Eu própria, a primeira vez que provei soja e quinoa foi num trabalho de grupo que fizemos em casa da Filipa em que a mãe, que era toda para a "frentex" porque fumava tabaco de enrolar, nos preparou uma bela salada para o jantar. Se não tivesse provado, não sabia que era só mais um bocado de sal e pimenta e aquilo até se comia bem.
Se fosse um município em Trás-os-Montes, eu até percebia isto de se acabar com as refeições vegetarianas no menu diário. Quem é que algum dia vai pedir um cuscuz de seitan quando pode comer uma bela alheira com ovo a cavalo e ir a arrotar a enchidos para o recreio?. Agora: em Lisboa? Até é mais importante promover um regime alimentar focado em produtos vegetais. É que há muitos miúdos a achar que penca é só o nariz do stor de Físico-Química.
