Estava eu folheando as revistas que pessoas como eu gostam de dizer que vêem apenas no cabeleireiro, as cor-de-rosa, quando o Rui, que me corta o cabelo, parou a tesoura e saiu-se com esta: “Diga-me lá o que é que eu posso fazer para Portugal não voltar a cair numa crise assim?“ Não me apetecia nada falar de agências de rating e crédito mal parado com molas coloridas na cabeça, mas a pergunta espicaçou-me. “Fazer, como?” “Sim, o que é que eu posso ensinar às minhas filhas para que Portugal melhore?”, respondeu o Rui, numa lição de civismo.
Sei o que estão a pensar e é verdade, o Rui não é um cabeleireiro típico. Está mais preocupado com a política do que com as tricas das socialites. Mas devo dizer-vos que a crise tinha sido o tema dominante da manhã, no cabeleireiro, sobrepondo-se ao drama das cores das madeixas, e até mesmo à celulite, no auge nestes dias calor. O mais surpreendente na pergunta do Rui foi que ele não alinhava na discussão ao lado da falsa loura que acabara de pentear, que criticava o governo, os deputados e tudo o que pudesse estar sob o chapéu de “eles”. Pelo contrário, o Rui repetia, noutras palavras, a frase de um certo (e bem penteado) presidente americano: não perguntes o que o teu país pode fazer por ti…
Uma frase batida, mas tão esquecida. Garanto que nunca passou pela cabeça dos que, no domingo, desfilaram Lisboa abaixo, na manif da CGTP. Já viram a energia que se criava em Portugal, se todas aquelas 300 almas indignadas – mesmo só aquelas - fizessem as mesmas perguntas que o Rui? O problema é este: independentemente das respostas conjunturais que os governos vão dando às crises agudas, enquanto estas questões não forem colocadas por todos, nunca nos vamos ver livres de situações de aperto. Também não ajuda nada que quem nos governa esteja sempre mais preocupado em salvar a pele ou ganhar eleições do que em olhar de frente para o povo e dizer-lhe o que ele tem de ouvir. Mesmo que para explicar, como pedia o Rui, o que pode fazer pelo seu País.
E já era tempo. É que o povo, baralhado na economia pura dos analistas do prime-time das Tvs, prefere alinhar na demagogia de, por exemplo, condenar gastos de gabinetes ministeriais ou deputados. Até porque dói menos do que perceber que também contribuiu para a crise, vivendo acima das suas possibilidades, endividando-se como se não houvesse amanhã, trabalhando menos... Ao limitarem o debate da crise a acusações mútuas e não falando com sinceridade, os partidos e os governantes acabam por eliminar da equação económica a sua parte mais importante, o verdadeiro motor da economia, o povo.
