Uma caricatura que, por vezes, se define a traço grosso, fanfarrão, quase como um Carnaval em desfile que se atira para a rua para ganhar prémios por querer contar uma anedota. Encontrar subtileza no comportamento da bancada parlamentar do Chega é tão ou mais difícil do que encontrar armas nucleares ou de destruição maciça em países atacados ou invadidos pelos EUA. Se quisermos, em sentido inverso, é tão fácil encontrar boçalidade, demagogia e mentira como encontrar petróleo nos territórios que os norte-americanos invadem ou atacam, quase como uma lei natural da física, uma hipérbole da Lei da Gravidade. É mesmo atracção mútua: toda a massa atrai outra massa e quanto maior a massa, maior a força. A dimensão do problema cresce na proporção do tamanho da previsibilidade.
Tantas guerras depois, continuamos aqui. O constante esforço de vitimização por parte do agressor acontece pelo facto de ter a plena convicção de que pode falar mais alto, mais bárbaro, mais disparatado e contraditório, e que ainda assim vai escapando pelos pingos da chuva, saindo após deixar em cacos todas as regras da democracia. Mais estilhaçadas do que as regras do direito internacional, parece não haver regras parlamentares ou de direito nacional que nos valham. E quando uma alma, seja Augusto Santos Silva ou Teresa Morais, em campos políticos distintos, pede algo tão simples como civilização e noção da gravidade dos actos, há um grupo de 50 deputados peritos em bullying que saltam das cadeiras como bebés chorões, abandonando o hemiciclo em forma de protesto antes do fim do debate que eles próprios agendaram.
Continua acesa a discussão sobre como se podem denunciar e combater extremistas, e muitos podem duvidar de que seja apontando o dedo a selvagens que se lhes retira protagonismo pela imediata vitimização que invocam. Mas não restam grandes dúvidas sobre os maus resultados que temos obtido com os processos de normalização e condescendência dos últimos anos, branqueando comportamentos racistas e misóginos de vendedores da verdade em banha da cobra pelo preço de uma mãe em saldo. Acusando deputadas de protegerem criminosos que cometem crimes contra mulheres em razão da sua nacionalidade, os episódios degradantes dos últimos dias no Parlamento mostram bem como há uma força política apostada na degradação completa das instituições democráticas, manual de pacotilha para adubo de crescimento de quem planta a desordem e a mentira para colher na vitimização.

