Não sei nada sobre o Senhor Alberto. Desconheço até o seu apelido e história, o nome dos pais ou se tem filhos, se está apaziguado ou por apaziguar, se nasceu a norte ou a sul do Mondego ou a sua idade certa. Sei que morrerá nos próximos dias e que chorou sem lágrimas por ter concretizado o único sonho que pediu para concretizar. Os olhos do Senhor Alberto conseguem ver-se nas fotografias reveladas pelo projeto Ambulância Mágica, da Cruz Vermelha Portuguesa, que realiza últimos desejos de doentes internados em cuidados paliativos. Não houve ninguém na unidade de desesperançados de Tondela que não tenha ficado surpreendido com o seu pedido. O Senhor Alberto desejava despedir-se do pôr do sol com a brisa marítima a bater-lhe na cara, sentir o cheiro do oceano, a tontura boa da vida, o bafo de eternidade. No dia a seguir ao Natal, médicos e enfermeiros dos paliativos agasalharam-no e o Senhor Alberto entrou para a ambulância a caminho do alto-mar. A Polícia Marítima já tinha a embarcação pronta para o receber. Zarparam então umas milhas para fora da realidade. Estava frio, mas não vento. O Sol começava a recolher, mas havia nuvens. Preocuparam-se sem razão, pois não tiveram de esperar mais do que uns minutos para que a brisa assobiasse e as nuvens libertassem o Sol. Foi então que o Senhor Alberto chorou sem lágrimas e sorriu numa despedida que valeu por um milhão de palavras que já guardara numa cómoda que apenas tornará a abrir, daqui a uns dias, se sentir uma outra brisa, um outro oceano e um outro Sol. O dia em que tudo voltará a fazer sentido.
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