
A lama que soterrou centenas de vidas em Lisboa e na sua periferia, numa noite de novembro de 1967, não arrastou apenas casas precárias: escancarou a brutalidade da pobreza e da desigualdade que a ditadura tentava a todo o custo esconder. A história das catástrofes em Portugal prova, com uma insistência trágica, que os eventos meteorológicos extremos nunca são puramente naturais, são embates profundamente sociais. Quando a terra arde ou os rios transbordam, o preço mais alto recai sempre sobre quem vive do seu trabalho, tem menos recursos e habita os territórios mais desprotegidos.
Das cheias mortíferas do Algarve e do Alentejo em 1997, aos incêndios letais de 2003 e 2017, e até aos aluviões na Madeira em 2010, o padrão confirmou não se tratar de episódios isolados. Em 2026, após o verão mais quente e seco de que há registo, a cadência assumiu contornos de colapso infraestrutural. Um comboio de tempestades, Kristin, Leonardo e Marta, afogou colheitas e provocou cortes massivos de eletricidade e telecomunicações, deixando um rasto de seis mil milhões de euros em prejuízos.
Perante a fúria dos elementos, o território encontrou o vácuo e a desvalorização irresponsável dos alertas. Sob aviso vermelho, o comandante nacional da Proteção Civil estava numa visita de estudo a Bruxelas, com autorização da tutela. A ministra da Administração Interna justificou o seu desaparecimento com a "invisibilidade do gabinete", enquanto era vista no centro de Lisboa a distribuir espadas numa cerimónia. Simultaneamente, com as comunicações do SIRESP a falhar, o ministro da Presidência gravava vídeos promocionais para as redes sociais. O ministro da Economia teve o desplante de sugerir em direto que quem perdeu o sustento acudisse à crise com o "salário do mês passado". Já Nuno Melo instrumentalizou as Forças Armadas para uma revoltante sessão de propaganda em Leiria.
A ministra do Trabalho prometeu um lay-off a 100%, mas a lei publicada impõe cortes reais de um terço nos rendimentos. Estou certo de que quem lê este texto acha indecoroso cortar o salário a quem tem, antes de mais, de reconstruir a sua casa. A resposta à devastação exige medidas de exceção, à altura da solidariedade nacional que se impõe. O Estado tem a obrigação de erguer um escudo social capaz de travar o choque económico, proteger as populações e assegurar a reconstrução.
A emergência climática não é um slogan vazio da Esquerda portuguesa. Sendo Portugal um dos países mais expostos às alterações climáticas, investir na transição e corrigir os erros do passado constituem exigências de segurança coletiva e de elementar racionalidade económica. Mitigar e prevenir a catástrofe será sempre mais eficaz do que tentar reerguer ciclicamente a vida sobre os escombros. Devemo-lo ao país, ao território, às vítimas e às gerações futuras.
