Os portugueses estão a duas semanas de fazer uma escolha fundamental para o seu futuro coletivo. Em eleições recentes - legislativas, europeias, autárquicas, até na primeira volta das presidenciais -, já estava representada nos boletins de voto uma força política que representa a direita mais extrema. Mas nunca estivemos perante uma escolha de preto ou branco, em que há apenas dois caminhos, duas visões tão distintas da comunidade política de que fazemos parte, como nesta segunda volta, em que teremos de eleger quem nos vai representar no posto mais alto da hierarquia do Estado, da defesa da Constituição, da democracia, dos valores. Em suma, quem vai zelar pelo nosso modo de vida.
Dentro de duas semanas, teremos de escolher entre António José Seguro, que não é um líder carismático, que é por vezes até aborrecido, no seu sentido comum sobre a necessidade de moderação e de consenso, mas que defende a diversidade, a solidariedade, a tolerância, um chão comum; e André Ventura, um populista eficaz, com um discurso divisionista, que vê nos outros (imigrantes ou cidadãos portugueses com cores de pele fora da norma, que professam religiões diferentes da matriz cristã, ou da etnia errada) uma ameaça à pureza da nação com que alimenta a sua demagogia, que defende um novo regime político, uma mudança nos valores e, finalmente, que revela uma ambição de poder sem limites.
É uma evidência que a maioria optará pela continuidade, equilíbrio e estabilidade, neste mundo em que há de facto ameaças externas cada vez mais objetivas, não por parte de cidadãos de outras origens, mas de poderes imperiais, violentos e autocráticos, alguns deles empoderados a partir de regimes democráticos. Mas, apesar dessa evidência, há uma escolha para fazer. Porque fica a dúvida sobre a força que se dará ao homem que vive da polarização e do extremismo, incentivando assim a desconfiança, a intolerância, o ódio e a violência. Ventura nunca viajou em autocarros cheios de neonazis, mas alguns dos seus seguidores fizeram-no, e sem vergonha. São as suas tropas de choque. Isto não vai estar escrito no boletim de voto, mas fica implícito, quando tiver de fazer a sua cruzinha.

