A Europa fala e a América faz. Mas será mesmo assim? Será que a bandeira diplomática do Velho Continente deixou de ser uma arma de persuasão pela paz e pelo progresso para se transformar numa demonstração de sonambulismo político? A América faz, hoje, equivale a dizer a América destrói, agita ou abocanha. A atual política externa de Washington assumiu a forma de um cão raivoso de dentes afiados na direção de tudo o que reluz. A América faz e a Europa fala podia ser só uma medalha na lapela da autoestima de Trump, mas a política do músculo só encontra razão se pelo caminho deixar uma pilha de vítimas. E a Europa é hoje a maior vítima deste aventureirismo perigoso dos falcões conservadores que gerem os equilíbrios estratégicos com a subtileza de um elefante africano.
Apesar de tudo, esta pode ser a oportunidade de ouro para a Europa mostrar que também sabe fazer. Que não ouve e cala quando a América ergue a batuta, provando que o Continente que se vangloria de ser um dos melhores para viver não tem de se contentar em permanecer sequestrado pelo medo de uma potência militar e económica que, verdadeiramente, não quer saber de nada nem de ninguém. Quer isto dizer que a Europa deve fechar-se sobre si própria? Não necessariamente. Mas um bloco territorial, político e económico de 450 milhões de cidadãos tem a obrigação de ser mais proativo, não apenas para diminuir o ascendente de uma América em modo terraplenagem, mas sobretudo para marcar posição num contexto global em que China e Índia estão a fazer virar a balança. A Europa que fala tem de fazer mais pelos europeus do futuro.

