Já escrevi a respeito em novembro de 2023, mas, entretanto, a situação, em vez de melhorar, agravou-se e, por estes dias, a Agência Portuguesa do Ambiente está a ponderar a desclassificação da praia da Matosinhos como zona balnear. A Câmara Municipal deverá tomar medidas para tentar evitar esta desclassificação, mas depois de tantos anos sem conseguir solucionar o problema da contaminação das águas e do problema ter piorado consistentemente, parece-me que qualquer plano de emergência peca por tardio. E se, por um lado, é muito triste que a maior e mais popular praia do grande Porto deixe de ser "zona balnear" e tenha os banhos interditados, é muito perigoso que a situação se mantenha dúbia, como tem estado nos últimos anos.
É que uma pequena placa a desaconselhar os banhos numa praia enorme e cheia de entradas diferentes, a ininterrupta atividade das muitas escolas de surf e a afluência contínua de pessoas ao areal não "desaconselham" realmente ninguém, dando a sensação de que é seguro mergulhar. Por outro lado, só na última época balnear, houve duas semanas em que a água foi dada como imprópria e os banhos foram proibidos, mas o problema é contínuo e a comunidade de surfistas local, que sofre com gastroenterites e problemas de pele, há muito tem alertado para o descalabro da situação ao longo do ano (podendo até consultar-se os resultados de análises periódicas na página Surf Rider).
O problema é complexo e tem a sua principal origem num esgoto de águas (supostamente) pluviais, que por ser inquinado ao longo do curso por centenas de descargas ilegais desagua totalmente contaminado em pleno areal. Mas este problema tem décadas e não se percebe como não houve ainda obras para canalizar este esgoto a céu aberto para uma ETAR. A Câmara justifica o agravamento da situação com a presença descontrolada de gaivotas na praia, mas, ao mesmo tempo, nada foi feito para impedir o aumento do paredão que serve o porto de cruzeiros (que cresce para albergar navios ainda maiores) e que torna as águas mais paradas e, portanto, prejudicando ainda mais a circulação que poderia aliviar a contaminação.
Ora, numa praia que ladeia um dos maiores portos do país e que já sofre as consequências do excesso de tráfego náutico, parece-me que esta decisão de aumentar o paredão foi feita à revelia dos interesses da população, da economia local (muito movida pela praia e pelo surf) e da salubridade. É muito irónico ver o posto de turismo da praia com a fachada dedicada à promoção do surf, quando o básico, ou seja, a segurança e a qualidade da água, não está assegurado e as soluções, não só não tardam, como são abalroadas pelas decisões estratégicas da indústria do turismo (leia-se dos cruzeiros), que, sendo uma atividade de alto impacto ambiental, pouco acrescenta em termos económicos ao tecido local.

