A falta que faz uma política que reconheça a riqueza da diversidade do país que somos!
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Aqui, em textos anteriores, foi evidenciado que Portugal é um dos países mais centralizados da Europa. Ficou demonstrado também que existe uma correlação entre desenvolvimento e descentralização. Ou seja, o centralismo - que pode ser medido em percentagem de orçamento e emprego do Estado (a que se soma, regra geral, a concentração de poder económico-financeiro e a emissão e recolha de informação, bem como a origem de quem opina na Comunicação Social) - está associado aos países menos desenvolvidos. Isto pode ocorrer porque os países menos desenvolvidos desvalorizam e desconfiam de quem está longe do centro ou porque o centralismo não favorece o desenvolvimento. Há uma terceira hipótese, que parece menos provável: a correlação entre centralismo e menor desenvolvimento tratar-se de uma mera coincidência.
É sabida a tendência do centralismo tratar por igual o que é diferente. Esta é, para mim, a principal causa da desvalorização dos ditos “territórios em perda”, nisso saindo prejudicado, todavia, o país todo. O centralismo que temos (territorialmente descoordenado) afirma-se no poder do Governo, mas também nas agências, institutos e fundações, com a concessão e privatização de serviços públicos à escala nacional e o esvaziamento das direções regionais, a par do caos geográfico entre áreas de coordenação intermunicipal, áreas de organização setorial do Governo central e os velhos distritos (de grande importância política enquanto círculos de representação eleitoral).
A favor dum país melhor e mais cuidadoso com a nossa diversidade, há uma segunda necessidade: a de abandonar uma apreciação meritocrática que desconsidera o contexto. Sei bem que é moda vermo-nos uns aos outros por princípios que desumanizam, levando-nos a crer que, com força de vontade, capacidade empreendedora e as dicas certas, todos vamos ter sucesso. Mas, em competição, é impossível todos termos sucesso; a consequência é muitos verem-se (e serem vistos) como culpados ou incapazes, numa avaliação que está a migrar para os territórios, sem que ninguém se importe sequer em avaliar o que é sucesso.
Mas, vejamos, porque se associa mais população a sucesso? A Finlândia, o país mais feliz do Mundo, onde o Índice de Desenvolvimento Humano é dos mais elevados, não tem muitos habitantes e a densidade é até inferior a Trás-os-Montes e Alto Douro. Será então a interioridade o problema? Mas como, se Madrid, Munique e Viena ficam mais longe do mar que Bragança, Alijó ou Miranda do Douro?
O envelhecimento, sim, pode ser um problema, o que não afeta apenas o território português com menor densidade e mais afastado do mar; o afastamento face a redes de comunicação rápida também não ajuda. Mas, o verdadeiro problema é que sejam sempre prioritários os problemas junto ao centro, como é agora o caso de aeroporto, mais uma travessia no amplo estuário do Tejo e largos quilómetros de metro, enquanto se prossegue o afastamento do Estado relativamente aos que moram longe de uma grande cidade.
Por fim, apelo ao combate ao centralismo, sem tréguas e em todas as frentes e oportunidades, até porque se sabe que não se cumpre tão cedo a Constituição no que diz respeito à concretização de regiões, o que fica claro ao termos um Governo que se lhe opõe. Por outro lado, certo da vantagem de haver respostas diversas para territórios diferentes (com qualidades, dificuldades e anseios únicos), espero que se incremente a territorialização das políticas de cada ministério e instituição e haja uma maior atenção do Governo - e, no possível, desde as CCDR - aos seus deveres de atenuação das desigualdades de base espacial, com reforço da equidade e promoção da articulação territorial das políticas setoriais.

