Portugal é o país da Europa com maiores taxas de depressão e de consumo de antidepressivos (segundo dados de 2019). Um país do Sul, com sol, boa comida e destino preferencial para turistas de todo o Mundo, mesmo sendo conhecido pela sua melancolia musical e poética, não seria um primeiro palpite se tivéssemos de adivinhar um ranking do género. No entanto, visto de perto, pelos seus salários baixos, carga horária (real) de trabalho semanal, pelos preços da habitação, pelas desigualdades sociais em crescimento, pela dificuldade de acesso a serviços essenciais no interior do país e pelas franjas mais desfavorecidas da população, pela falta de políticas de apoio à parentalidade e a sobrecarga sentida pela maioria das mães, entre muitos outros fatores, parece que a justificação para os nossos tristes números vai aparecendo.
Ainda esta semana ouvia um episódio do podcast "Consulta aberta", de Margarida Graça Santos, sobre as determinantes sociais de saúde, que começava com uma citação de um médico (Dave Gordon), dizendo "não seja pobre, e se for, não o seja durante muito tempo", continuando a explicar que para ser saudável era importante ter uma boa casa, num sítio seguro, pouco poluído e sem humidade, estar perto de espaços verdes, ter acesso a alimentos de qualidade, aos serviços públicos básicos, transportes e apoios sociais, ter direito a férias e viver sem grandes angústias e preocupações (ou seja, com estabilidade). Apesar de parecer evidente, esta formulação do que é socialmente importante para garantir uma vida saudável é muito menos mainstream do que os aconselhamentos sobre estilos de vida ativos e uma dieta equilibrada, sendo que sem uma vida minimamente estável e acima do limiar da pobreza, poder sequer escolher uma dieta é um privilégio inacessível.
Ora, numa época em que discursivamente se responsabiliza as pessoas pela sua própria saúde física e mental, há a tendência para esquecer que a influência das tais determinantes sociais é esmagadora e que a saúde individual é, em grande medida, fruto de políticas de saúde pública, mas também da política como um todo. Ademais, na era do coaching, da mindfullness e de um sem-número de aconselhamentos pseudoespirituais, que insistem em focar no indivíduo e nas suas escolhas, responsabilizando cada um pelo seu sucesso ou paz de espírito, a desresponsabilização da estrutura social em que o individuo está integrado é total.
O ónus do sucesso ou do insucesso de cada um é depositado na capacidade/performance do próprio, não interessando as condições de trabalho, as lógicas de desigualdade, o desamparo por parte do Estado. É o braço "espiritual" do neoliberalismo a sacudir do capote o "fracasso" da maioria dos lesados do sonho americano, enquanto se desinveste no Estado social, se aumenta a precariedade e se erode o SNS. Haja antidepressivos!

