Recentemente, num colóquio realizado na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Braga sobre temáticas de comunicação tive uma intervenção em que sustentava esta tese: A Idade Média acabou. Também a "Idade dos média" pode acabar. Ora, alguns dos temas versados nestes últimos dias, primeiro no seminário organizado pela Universidade do Minho e com o apoio da RTP, a propósito da celebração dos 50 anos do "Telejornal", e depois, na Conferência Anual, promovida pela ERC, sobre "A Comunicação Social num contexto de crise e de mudança de paradigma", dão-me alguma oportunidade para retomar algumas das ideias desta hipótese de tese: "A Idade dos média pode acabar".
Quando digo a "idade dos média", prefiguro aquele período que se foi formando desde a segunda metade do século XIX, com o surgimento da Imprensa empresarial, reunindo depois a rádio como grande média nos anos 30 do século XX e a televisão a partir do final da Segunda Guerra Mundial. Constituiu-se assim aquele sistema "dos meios de comunicação de massa". Hoje, com a proliferação de múltiplos e diferentes "dispositivos tecnológicos" está criado um novo sistema informacional. Esses "revolucionários" suportes tecnológicos (a Internet e seus derivados, como o Messenger e os e-mails, os blogues, o Twiter, o Facebook, etc. e, por outro lado, os telemóveis, os "sms", os "ipods" os "iphones", etc.) formam uma constelação de "meios/média" cada vez mais articulados que vem alterar o paradigma comunicacional.
Deste modo, transitou-se do "sistema de comunicação de massa" para o sistema de "comunicação em rede". De um sistema de média centrado numa circulação informativa de um "emissor configurado" ( o jornal, a rádio, a televisão) para um "receptor indistinto" (os diversos e diferentes públicos) passou-se para um sistema cuja produção e circulação de informação é descentrada, quase infinita, e não regulada. De certa maneira, cumpre-se a utopia de Bertold Bretch, cada cidadão pode ser, a um só tempo, emissor e transmissor de informação. Esta "revolução" está a provocar um tsunami no "mundo organizado" do tradicional sistema mediático. E com alguns efeitos que exigem ser reconfigurados, tais como: uma perda evidente de audiências e de influência no espaço público, uma tendente queda da legitimação social de quem está instituído para dar e garantir a informação mais exacta, uma profunda interrogação no papel profissional do jornalista e da função social do jornalismo, e da própria continuidade dos "média tradicionais". Da sua "morte" ou seu futuro. Estamos perante uma miríade de problemas que a mudança do paradigma comunicacional veio trazer e que requer a reinvenção de processos organizacionais e profissionais.
Todos se rendem à mudança das plataformas. Porém, mais uma vez, surge a resistência cultural à mudança do paradigma. Não obstante a autoridade do conferencista Jeffrey Cole não creio que os jornais vão acabar. Tudo deve ser contextualizado em relação ao espaço e ao tempo. Mas é à luz do novo paradigma que devem ser discutidas questões tão importantes como a regulação e auto-regulação dos média, a propalada "asfixia democrática" ou até a agora denunciada nossa descida em liberdade de Imprensa. Provavelmente acabou uma era. Não os média antigos e novos. Terei de voltar a este assunto.
