A evolução dos sistemas de inteligência artificial (IA) surpreende-nos de todas as vezes que surge um novo vídeo viral a demonstrar as capacidades incríveis dos computadores supostamente inteligentes, como as mais recentes imagens de uma batalha cinematográfica - que nunca existiu - entre Brad Pitt e e Tom Cruise, na cobertura de um arranha-céus. Se não viu o clipe, aconselho-o a perder uns minutos a procurá-lo e a vê-lo, para perceber por que razão os grandes estúdios de Hollywood estão aterrorizados. Facilmente, passaria pelo mais recente trailer de mais um blockbuster.
Este episódio leva-me a sexta-feira passada, quando o fundador da Open AI, dona do ChatGPT, resolveu defender-se das críticas sobre consumo de energia dos centros de dados que dão vida à IA - com efeitos devastadores para ambiente e populações - , com uma comparação com implicações muito mais profundas do que parece. Sam Altman lembrou que o ser humano atual é fruto da energia despendida aos longo de milhares de anos de evolução. Num nível mais micro, afirmou que um ser humano precisa de energia durante 20 anos, para "ficar inteligente".
Sobre Altman. Em primeiro lugar, colocar no mesmo patamar máquina e ser humano abre portas para um futuro distópico, onde a Humanidade fica relegada para um segundo nível de importância, num Mundo dominada por computadores (e pelos milionários que os controlam). Em segundo, as contas estão muito erradas, por vários motivos, mas o que me interessa mais é o básico: as máquinas não criaram nada de novo. Aprenderam com todos esses milénios de evolução, com todo o conhecimento humano produzido até ao momento. Ingeriram-no e expelem-no agora, de forma muito eficaz e eficiente, diga-se, com novos embrulhos derivativos. A energia despendida pelo Humanidade tem de estar nas contas da despesa energética da IA.
Enquanto um artista usa toda a sua experiência e vivência para criar um objeto a que acrescenta algo pessoal, um sistema de IA baralha e volta a dar o que aprendeu. Voltando ao vídeo IA de Brad Pitt e Tom Cruise. Para conseguir criar aqueles segundos de vídeo, o sistema Seedance certamente viu todos os filmes dos dois atores, viu todos os filmes de ação, leu todos os manuais de cinema, todos os guiões, todas as críticas e tudo o mais que o ser humano tenha criado. E quem paga os direitos de autor? Quem paga a todos aqueles que criaram os conteúdos? E a pergunta pode ser feita sobre o conteúdo roubado pelas máquinas da IA aos jornais todos os dias. Quem os paga? Quem paga às empresas de comunicação? Quem paga aos jornalistas? É que, sem conteúdo criado por humanos, os agentes de IA não existem.

