Nas suas análises sobre o pensamento e comportamento das sociedades, José Gil postulou que a inveja, em Portugal, transcende muitas vezes o sentimento individual, tornando-se um sistema social, um mecanismo coletivo de poder e influência que visa paralisar o progresso e a iniciativa, operando através de grupos que, muitas vezes de forma concertada, agem para atingir e travar quem se destaca. Esta forma de estar traduz-se, frequentemente, em entraves ao trabalho e à sua valorização, à dinâmica social e ao desenvolvimento, numa espécie de "mau-olhado" coletivo que atrasa e desvia.
A expressão da tendência social para minar, muitas vezes denegrir, a vitalidade e o desejo de progredir, com foco na destruição do que é diferente ou superior, em especial em situações que se traduzem em ganhos económicos e financeiros, é, do meu ponto de vista, um problema coletivo sério do nosso país, o que se constitui como mais um dos fatores que contribuem para a nossa dificuldade crónica de afirmação nos patamares elevados do desenvolvimento económico e social.
Este fenómeno complexo, que opera através de mecanismos cerebrais, psicológicos e sociais, manifesta-se no azedume pelo sucesso alheio, ativando uma espécie de "prazer" invejoso, à mistura com falsa dor, dita de "pena", perante as falhas ou dificuldades alheias, mas com dor visível quando alguém prospera, gerando mecanismos coletivos de desconfiança, muitas vezes traduzidos em ataques à individualidade, impulsionados pela sensação da falsa injustiça do "porque não eu?". Estas comparações irrealistas, mais do que bloquear o desenvolvimento pessoal próprio, alimentam frequentemente a falência de modelos de sucesso coletivo.
Quando vemos este sistema ter expressão em debates para a Presidência da República, com início em protagonistas impensáveis, então temos mesmo razões para lamentar. Porque a inveja traduz parte do que de pior tem a natureza humana.

