A liderança dos (mais) velhos
A desistência de Joe Biden à corrida à Casa Branca foi um epílogo que começou a ser por muitos desejado após o avolumar de sinais de fragilidade pessoal, em diversos episódios que, pela natureza publicitada, ganharam uma importância reforçada.
No entanto, não deixa de ser curioso como, no espaço de poucos anos, temos observado mudanças na forma como muitos olham as lideranças públicas ou de maior exigência e a idade mais avançada dos líderes! Se, até há bem poucos anos, muitos aplaudiam a presença de cidadãos com mais de 75 anos em cargos públicos ou de responsabilidade alargada (nomeadamente, grandes empresas, coletividades desportivas ou associativas e outras comunidades), parece ter surgido, também como uma “onda de opinião”, a leitura contrária nos últimos tempos.
Antes, o líder mais velho era o mais experiente, o mais sábio/o mais sabichão, o mais capaz de responder pelo sucesso ou pelo insucesso. Juntava-se a esta leitura a gratidão pelos anos (e muitos dias) de sacrifício em prol da coletividade ou da comunidade. Juntava-se ainda o respeito que a tradição consagra, numa forma de imperativo categórico.
A voz do ancião é, em termos antropológicos, uma fonte de autoridade, especialmente nas comunidades assentes na proximidade dos membros e na partilha de cada detalhe da vida pessoal ou comunitária.
No entanto, nas nossas sociedades complexas, a voz do ancião, dos barões políticos ou dos capitães da indústria já não é só a voz do indivíduo que a genética, a biografia e a comunidade rechearam de reconhecimento e de longevidade. A voz do líder é a voz dos que suportam a liderança, nomeadamente grupos pequenos de grandes interessados. Sejam eles dependentes financeiramente, estatutariamente ou em termos de prestígio. O principal argumento, lá ou cá, tende a ser o bem da estabilidade. Manter o líder, ainda que o saibamos envelhecido e decerto mortal, ajuda a manter as coisas e os rendimentos dos que têm coisas e rendimentos. O argumento dos que querem mudar o líder velho também é um cliché - fazem-no para preservar a realidade maior, seja o clube, a empresa, a democracia.
Quer para uns quer para outros, convém lembrar que andem sempre com uma manta e que deixem metade aos velhos abandonados. Como na história que fazia parte do meu livro da escola primária, todos envelhecem - os líderes mas também as lideranças.

