Quem não vê futebol num estádio não percebe nada do que é o futebol. A popularidade do desporto, atualmente, advém fundamentalmente da televisão e não do desconforto de se estar num estádio. Isso não é futebol, mas a imagem em streaming de uma coisa que foi construída sem a emoção de uma presença, da nossa presença. É como ver "O padrinho" na Netflix e dizer-se que se viu o filme. Não, não se viu o filme. Viu-se uma coisa parecida com o filme, mas a léguas da imersão numa boa obra que só uma sala de cinema é capaz de dar. No futebol é similar.
Fui ver o jogo do Vitória quando tudo me aconselharia a ficar no quentinho da casa. Eu próprio hesitei, mas os meus amigos iam e eu não poderia deixar de os acompanhar. Agasalhei-me abundantemente. A primeira metade foi muito fraquinha e a segunda, sem ser deslumbrante, resgatou o meu sacrifício. O treinador acertou nas alterações, depois de ter falhado nas escolhas. O Samu anda perdido, por agora, no campo e no propósito, mas o jovem Diogo Sousa trouxe outra energia e libertou o Gonçalo Nogueira no campo. Ao Telmo acabam as pilhas cedo. O Noah fica muito melhor à direita e o Camara nasceu para a esquerda. O esforçado Ndoye traz outra energia que o Nélson, sempre perdido em picardias, não está a trazer. Acertaram-se as peças do relógio e a coisa funcionou muito melhor na segunda metade e deu-nos um resultado merecido.
Houve assobios na primeira metade. O treinador ficou chateado, mas não deveria. A nossa história é de exigência, mesmo que a qualidade seja mais desejada do que real. Sempre assim foi. Há que se habituar a essa filosofia, nas duas metades.

