A evolução e história da Humanidade levam-nos muitas vezes a questionar as razões de múltiplos acontecimentos, difíceis de compreender à luz dos valores e sentimentos da partilha, da amizade, gratidão e lealdade, pressupostos que, não sendo em si mesmos uma garantia absoluta, constituem uma base sólida de uma convivência social mais pacífica.
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É muito difícil de aceitar acontecimentos e fenómenos como a guerra na Ucrânia, a violência urbana ou rural, incluindo a de espaços escolares e no deporto, a violência institucionalizada em muitos regimes políticos, incluindo a subjugação social da mulher ou, mais recentemente, a descrição chocante da violência sexual sobre crianças e jovens, associada à Igreja Católica. Sabemos que a violência é tão antiga quanto as sociedades, resultando em muitos casos de formas de exercício de poder que levam quase sempre a uma escalada imparável de reações e respostas às mesmas. Ou seja, a violência gera quase sempre mais violência, originando assim uma sucessão de novos confrontos.
A forma pública como a igreja está a ser exposta tem naturalmente consequências muito negativas sobre esta instituição secular, fundamental na nossa vivência como seres sociais. Sendo certo que é sempre possível dissociar as dimensões da fé, da natureza humana dos seus missionários, nenhum de nós deixa de se questionar sobre a igreja dos homens, porque é disso que ela se constitui e se organiza. Tenho tido o privilégio de conhecer ao longo dos anos pessoas únicas na sua dimensão humana e disponibilidade total para a prática do bem comum, em benefício dos mais vulneráveis e desfavorecidos. É esta a imagem global que tenho e que espero preservar sobre o clero em geral. Mas, como vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar. Que alguém saiba iluminar o caminho neste momento de dor.
Reitor da UTAD

