A saúde em tempos de balanços e de desejos
Por estes dias, é costume fazerem-se balanços do ano que findou e formularem-se desejos sobre o ano que está a começar. No que à saúde diz respeito, sobre o balanço de 2025 muito já foi dito, e raras vezes bem, o que suscita que nos questionemos quanto à justeza desta que é, estou convencido, a apreciação generalizada e amplamente maioritária na sociedade portuguesa: a coisa vai de mal a pior!
E será mesmo assim? A situação tem mesmo vindo a piorar? Os números e as opiniões diferem em função das fontes, ficando a ideia, porventura incorreta, de que todos estão a exagerar e a realidade ficará algures pelo meio.
Do que não haverá dúvidas é de que é mau, mesmo muito mau, este clima em que caiu o tema saúde, em larga medida porque deixámos que fosse apropriado pela guerrilha partidária e pelas pressões corporativas. Continuo a ver um só caminho para construirmos soluções de sustentabilidade neste que será, porventura, o nosso maior desafio coletivo da atualidade: um grande pacto de regime, que retire o tema da espuma dos dias, com base num plano a médio e longo prazos, lúcido, suportado na evidência científica, no rigor da tecnologia e no elementar bom senso. Para o tornar possível, todos estamos convocados, mas, claro, a responsabilidade primeira recai sobre quem governa.
Ora, enquanto os que têm responsabilidades, de governo ou de oposição, não conseguirem encontrar a motivação e a coragem para avançarem no sentido da convergência estratégica nesta área, o que, por enquanto, ainda só será uma perceção negativa, poderá muito rapidamente passar a uma dura realidade, com todas as consequências que tal acarretará para a nossa qualidade de vida, onde se inclui o imprescindível equilíbrio social.
Mas se neste que é o ângulo mais conhecido e mais mediático da saúde o horizonte apresenta tons muito carregados de cinzento, há um outro, menos visível e menos mediatizado, que é o da saúde que gera emprego, que gera riqueza, que exporta e que cada vez mais se assume como um dos mais dinâmicos motores do desenvolvimento económico e social do nosso país. No ano de 2025, as exportações em saúde terão batido mais um recorde, ultrapassando claramente os 5 mil milhões de euros. Para quem estes números pouco possam dizer, fará sentido referir que ultrapassam, em muito, o volume de negócios, no mesmo período, da Autoeuropa que, como sabemos, é na sua quase totalidade realizado no mercado externo.
Parecem, pois, cada vez mais claras as vantagens de olharmos estes dois grandes ângulos da saúde de forma integrada e articulada, retirando daí todas as vantagens, desde logo, para a componente que todos consideramos mais relevante: a da prestação de cuidados aos cidadãos, de forma geral e universal, com standards de qualidade e de desempenho de nível mundial. Com efeito, há um equilíbrio entre a sustentabilidade do sistema de saúde e a competitividade do cluster de inovação em que este está inserido, que temos de saber manter e desejavelmente maximizar.
Infelizmente, esta capacidade de ver em conjunto a cadeia de valor nacional da saúde, de tirar partido das óbvias sinergias que estão em presença e de a olhar preferencialmente do lado da oportunidade e menos do lado da despesa nem sempre tem constituído prioridade ou preocupação por parte dos que têm tido em mãos a capacidade de moldar e decidir o nosso futuro coletivo. Seria esse o meu desejo para 2026.

