A tempestade depois da tempestade
O país enfrenta o desafio de recuperação dos terríveis danos causados pelas tempestades que assolaram o nosso território.
O país não é uma abstração administrativa ou política. São os milhões de pessoas afetadas, as dezenas de milhares de casas danificadas, os milhares de empresas com a sua capacidade de laboração muito limitada. Dezenas de municípios que precisam de restabelecer a rede viária, recuperar equipamentos públicos, aplicar recursos imensos na reabilitação de infraestruturas de abastecimento de água e de saneamento.
Sabemos que o Governo decidiu, e bem, disponibilizar os recursos financeiros na escala necessária a estes desafios. Em teoria, estamos a preparar a resposta adequada à escala da catástrofe.
Na prática, sabemos que entre o querer e o fazer acontecer há demasiadas vezes uma barreira de insensibilidade burocrática que pode condicionar a eficácia das medidas excecionais decretadas.
Num Estado centralista como o nosso, esse problema agrava-se. Os autarcas, pela sua proximidade natural às populações e ao território, conhecem demasiado bem os corredores da burocracia centralista e o tempo perdido a dialogar com uma máquina do Estado que nem sequer dentro de si mesma consegue dialogar.
Espero estar enganada no meu pessimismo. Espero que o Governo, que recusa a regionalização e que fez recuar a crescente autonomia das comissões de coordenação e desenvolvimento regional para o regresso à dependência dos ministérios, prove que é capaz de responder a esta crise com eficiência a partir do Terreiro do Paço.
Paulo Fernandes, coordenador da resposta de recuperação, autarca experiente e competente, recebeu uma missão que é o 13.° trabalho de Hércules.
Para bem de todos, desejo-lhe o maior sucesso. Ele merece a nossa confiança. E merece também a solidariedade de todos os autarcas na exigência que será necessário fazer ao Estado.
A situação não pode, como tantas vezes aconteceu quando as câmaras de televisão se afastam, cair no esquecimento.
Os apoios têm de chegar agora e durante o tempo em que forem necessários. As comunidades afetadas pela catástrofe não podem ser sujeitas a uma nova tempestade, a da distância com que o centralismo olha o país como se fosse apenas paisagem.
A todos os afetados exprimo a minha solidariedade. A todos os autarcas que estão, como sempre, na linha da frente deixo expresso o meu reconhecimento e o meu empenho nesta luta comum.

