O primeiro momento de definição das presidenciais pode ser a derradeira oportunidade para não cedermos à pressão do voto útil. A utilidade instrumental do voto, evidente na segunda volta para quem escolhe um mal menor ou um bem suficiente, pode colocar-se no dia 18 como uma pré-desistência da convicção, não pelo desejo de alienar o voto, mas por medo. Ora o medo não assegura a democracia, antes a base da sua destruição, sendo precisamente por ele que tantas vezes nos afastamos das mais elementares noções de representatividade. Votar no candidato que mais se aproxima das nossas ideias parece um valor democrático em extinção, sobretudo quando ninguém procurou convergências. O catequismo do voto útil é, na primeira volta, um medo cacique.
O crescimento de António José Seguro durante a campanha é talvez o facto mais assinalável e notório, o "twist" anónimo mais competente e capaz de todas as eleições presidenciais. Seguro não teve apenas de ultrapassar os seus adversários. Teve de convencer o seu próprio partido e, em boa parte, começar a acreditar em si mesmo para convencer os eleitores de que algum bom senso pode ser um voto de protesto. Não é coisa pouca. Num comedimento centralista que não cria parangonas nem títulos de jornais, mas que resiste ao turbilhão dos dias com uma dose unificadora de sentido de decência, Seguro merecerá os votos de toda a Esquerda na segunda volta em que, quase indiscutivelmente, estará. Resta saber se o que ganhou à Direita não perdeu agora à Esquerda ao não se definir como um candidato deste espectro político e ao recolher apoios em passistas e no reduto mais íntimo do Governo de Montenegro.
A queda nas sondagens de Marques Mendes tem como causa evidente o efeito mobilizador de João Cotrim Figueiredo, tanto como a semana horrível de um Cotrim ofensor ou vítima (o juiz e o eleitor decidem) tem dedo do próprio pela incapacidade que revelou em lidar com uma acusação desta gravidade, mostrando uma IL fragmentada entre o (des)conhecimento e a incomodidade da situação. Pior do que as suposições são os factos. O encontro amigável entre Cotrim e responsáveis do Chega no Porto é uma boa legenda vindoura para as declarações deploráveis de Cotrim sobre o seu voto na segunda volta. Vivemos tempos em que um caso de suposto assédio pode surtir o efeito contrário na urna pela vitimização, ataque aos jornalistas ou ódio às mulheres, mas a possibilidade de votar na extrema-direita em Portugal criou em muitos eleitores uma onda de remigração do voto. Algo que dificilmente Marques Mendes ou Gouveia e Melo, ao contrário de Seguro, parecem capazes de capitalizar.
*O autor escreve segundo a antiga ortografia

