Os votos estão contados e o vencedor definido - em quatro das cinco comissões de coordenação e desenvolvimento regional, o desfecho era conhecido à partida. Importa olhar para o caminho político percorrido até ao sufrágio e para o papel futuro das CCDR. Mais uma vez, apesar das juras públicas de confiança nos autarcas e da proclamada vontade de conferir-lhes mais poder de decisão, o PSD e o PS, no topo da cúpula, foram incapazes de conter a vertigem de escolher por eles. Repartem o país a meio, como que inspirados pelo Tratado de Tordesilhas, e toca a apontar quem deve comandar, na certeza de que reinaria total obediência. Não está em causa a capacidade dos protagonistas, mas a enorme tentação do polvo partidário de fincar o seu tentáculo, convertendo o sufrágio indireto para as CCDR numa encenação. Foi o primeiro-ministro António Costa que implementou o modelo de eleição do presidente das comissões, sob o argumento de que os líderes devem ser escolhidos pelos eleitos em cada região. Contudo, não se pense que o seu PS (ou o PSD de Rui Rio) fez melhor do que o de José Luís Carneiro (e o de Luís Montenegro): a escolha saiu da cúpula, o que, por si só, é outra expressão de centralismo. E perspetivando o papel futuro das CCDR, assoma-se a dúvida sobre o que serão as comissões no território: vozes da região, onde a conquista de novas competências recentrará o poder de decisão nos protagonistas locais, ouvindo-os e conferindo-lhes a palavra final, ou emissários do Governo que se limitam a cumprir o que foi assente em Lisboa, como faziam as extintas administrações regionais de saúde ou as direções regionais de educação. A alteração do organograma das CCDR com a criação de vice-presidências setoriais, nomeadas pelo Governo, desperta a suspeita de que o fim dos organismos do Estado nas regiões e a integração dessas competências nas comissões seja apenas um mudar de morada e não de paradigma: a gestão do bem público com, pelo menos, algum nível de independência regional.
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