
No miradouro de Santa Catarina, nas belas alturas de Lisboa, varanda do Tejo, um Adamastor de pedra gritava horrendo: "Ó gente ousada, mais que quantas no mundo cometeram grandes coisas" e, já agora, o mostrengo que está no fim do mar, na noite de breu ergueu-se a voar e chiou a um casal de turistas:
- Querem haxixe?
Trazia um pacotinho na mão.
- Tens mais?, perguntou o casal, e Gui foi buscar mais haxe e liamba a um amigo que o esperava num banco, mas o casal de turistas era afinal um par de polícias à paisana, e o pobre Gui foi preso. Ali estava ele agora, meses depois, acabado de desalgemar no tribunal, vindo da penitenciária para novo processo de tráfico de estupefacientes de menor gravidade. Mas era muito grave e grossa a voz de Gui, um baixo coral, em tudo o resto o rapaz era palhinha frágil quando explicava porque é que vendia droga no miradouro do Adamastor em Lisboa:
- Era para ajudar as dificuldades... Eu consumia haxixe, cocaína, cavalo. Agora já estou curado das minhas antigas doenças.
O juiz era, felizmente para Gui, a delicadeza trajada de beca.
- Que doenças é que tinha?
- Epilepsia, esquizofrenia e bipolaridade. Eu ouvia vozes.
- E diz então que está curado? Já não ouve vozes? Deixou de ter alucinações auditivas?
- Já não tenho muitos ataques. Agora às vezes ouço vozes, mas são a voz de Deus.
- De quem?...
- A voz de Deus.
- Mas o que é que ouvia dantes? O que lhe diziam as vozes?
- As vozes pediam-me para fazer mal às pessoas.
- E deixou de as ouvir porquê?
- Graças às medicações. Ao tratamento que tive ao longo dos anos.
Agora só ouve a voz de Deus.
- As outras já acabaram. Deus diz-me: é preciso ter fogo, força, fé.
O juiz, delicado até ao fim deste mundo, preparou a pergunta.
- Alguma vez a doença... As vozes... alguma vez as vozes lhe disseram: "vende droga", "vai vender droga"?
- Nunca ouvi, mas era das más companhias na rua. E era para me alimentar.
A advogada pediu, na audiência, a realização de perícia psiquiátrica. A procuradora do Ministério Público mostrou-se contra, já havia confissão integral e sem reservas e não havia qualquer sinal de que, no momento do crime em causa, Gui não estivesse consciente do que fazia. O juiz arrumou a questão: é juridicamente possível levantar, durante a própria audiência, o problema da inimputabilidade do arguido, mas só para crimes mais graves, de crimes contra as pessoas, e a culpa aqui em causa era apenas um tráfico de menor gravidade:
- O próprio arguido, explicou o juiz, admitiu que seriam alucinações auditivas. Mas como a voz não lhe disse para vender droga... Uma eventual inimputabilidade não teria a ver com os factos em causa.
Gui queria dizer mais uma coisa:
- Quanto aos factos do processo, quero pedir imensas desculpas aos agentes da esquadra do Bairro Alto.
E cumpriu. A agente entrou e contou como Gui tinha tentado vender droga, que não tinha causado problemas quando lhe deu voz de detenção (não de Deus) e, quando a guarda saía, o rapaz cantou:
- Vanessa, desculpe!, com as mãos em oração para ela.
O segundo guarda disse que já o conhecia, encontrara Gui várias vezes nos serviços de psiquiatria do S. José. Falava com as pessoas, dormia na rua, "às vezes era inconveniente, mas nunca faltou ao respeito. Teve sempre um comportamento exemplar". À saída deste guarda, Gui foi cavalheiro:
- Muito agradecido!
- Vá, tem juízo..., disse-lhe o guarda, com um dedinho humano no ar.
Gui, a voz de Deus, a voz de detenção... e alguma desatenção.
