No documentário de Andres Veiel sobre Leni Riefenstahl, há duas cenas pavorosas. Numa delas, a realizadora, já velha (morreu com 101 anos), assiste ao "Triunfo da vontade", peça máxima de propaganda nazi. E encanta-se com as transições, a proeza técnica, os ângulos, as filmagens aéreas, a inovação da montagem. Perante nós, está uma mãe que revê imagens de um filho que já morreu.
O filho está morto num sentido muito próprio: a vida que ela lhe quis dar extinguiu-se com a tragédia do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial. Desde o fim do Terceiro Reich, Leni Riefenstahl passou o resto da vida a defender-se com duas teses inconciliáveis: a de que, sem qualquer experiência política, ingenuamente emprestou a sua arte a um regime que não compreendia na totalidade - mais do que isso, cujos horrores nunca poderia prever; e a de que, apesar de tudo, a genialidade dos filmes que realizou para Hitler, sobretudo o "Triunfo da vontade", é uma espécie de paraíso perdido ao qual poderia voltar sem mancha de pecado.
Na cena em que revê o filme, Leni sorri, acompanha as transições com o balanço da mão enrugada e termina com um suspiro. Por instantes, quase é possível acreditar no embuste. Podia de facto ser a mãe de um filho morto, não fosse ela própria o filho morto. Isto é, não fosse ela própria a prova de que não só é impossível voltar ao paraíso propagandístico como este nunca existiu.
Mas há outro momento mais pavoroso. Depois de um talk-show nos anos setenta em que, confrontada, manteve as duas teses, Riefenstahl recebeu e gravou centenas de chamadas em que centenas de pessoas se mostravam solidárias. Como poderia a grande realizadora saber, se também eles não souberam? Como poderia ela não ter dado o melhor de si, se também eles o deram? Ela que não se deixasse abater.
Tais centenas de pessoas viram em Riefenstahl a personificação do seu próprio dilema. Uma vida inteira tentando fazer acreditar que nada sabiam, quando, se não sabiam, foi decerto por ignorância culposa, ou simplesmente era mentira, já que a discriminação violenta dos judeus e as Leis de Nuremberga foram públicas e notórias. Ao contrário deles, muitos souberam, muitos provaram que era possível saber.
Neste sentido, a arte de Leni Riefenstahl é irrelevante, apenas torna o dilema maior e mais horroroso. Tal como ela, muitos decidiram dar o melhor de si àquele regime, talvez preferindo acreditar no que desejavam ver e não no que realmente viam.
Também eles viveram num paraíso de perfeição técnica, de beleza da forma e de novos ideais de grandeza e prosperidade. Também eles, que não tinham a arte de Riefenstahl, caíram pelas suas próprias qualidades.
O autor escreve segundo a antiga ortografia

