
Das verdades ilusórias em que ainda acreditamos, a liberdade é uma delas. Afirmação perigosa, admito! Mas é difícil negá-la: nascemos condicionados, crescendo como o produto de um contexto que não escolhemos. Contudo, é difícil aceitarmos, tão simplesmente, essa impotência, procurando constantemente desafiar esta realidade e reconstruir a narrativa que nos assenta melhor.
Lembro-me de um dia ler a teoria do economista comportamental Keith Chen. Este propôs que a estrutura temporal das línguas molda o comportamento económico: ao separar passado, presente e futuro, idiomas como o português tornam o futuro mais distante e diminuem a propensão para poupar. A verdade é que nenhum cidadão português escolheu deliberadamente este idioma como língua nativa e, com ele, as lentes com que passa a ver o Mundo. Somos, assim, o resultado de um contexto que nos molda antes mesmo de termos consciência disso. Mas pergunto agora: na urgência de liberdade, qual a melhor forma de o ser humano colmatar essa necessidade? Criando.
Neste sentido, e focando-nos um pouco no mundo empresarial, a empresa é uma manifestação da arte de criar. Se, então, por um lado, o ser humano nasce condicionado, por outro, a empresa nasce da ilusão oposta - a de que tudo (ou quase tudo) pode ser controlado. Tentamos escolher as melhores condições: exploramos o lugar com as melhores políticas fiscais, antecipamos cenários macroeconómicos, tentamos calcular o incalculável, tudo em prol de uma limitação menos redutora do nosso produto, a nossa empresa. Há, assim, uma transformação da nossa impotência em estratégia, de medo em método, planeando o que à partida não nos foi permitido: a escolha do contexto.
Por outro lado, a empresa, manifesto de criação, pode surgir ao mesmo tempo como uma peça de inovação. E então, põe-se a questão: O que é realmente inovar? Não deveria inovar pressupor a liberdade total de uma nova forma de ser? De facto, somos herdeiros de ideias já existentes, moldadas pelas experiências e pelas circunstâncias nas quais nos inserimos. Nada nasce no vazio. Talvez, então, inovar não signifique criar do nada, mas sim reconfigurar o que já existe, não exigindo, como tal, liberdade absoluta.
Percebemos, então, o potencial da limitação. A impossibilidade de liberdade absoluta não é uma derrota, mas um motor da criação: é dentro destas restrições que descobrimos novas formas de ver e aprendemos a desenhar as nossas próprias saídas.
