À medida que vou tendo conhecimento detalhado das iniciativas concretas que estão previstas serem realizadas no âmbito do PRR em diversos setores da Administração Pública (AP), no setor das tecnologias e sistemas de informação e da transformação digital, vai-se consolidando a minha convicção do profundíssimo desalinhamento entre os legítimos e bondosos objetivos dos dirigentes políticos e institucionais e a capacidade existente no país para os efetivar no prazo disponível para a execução do PRR.
A análise semântica dos textos elaborados sobre os programas a concretizar, sujeitos ao enquadramento legal dos concursos públicos e das diferentes fases do ciclo de vida de cada um deles - desde a especificação dos requisitos técnicos e funcionais, à elaboração dos cadernos de encargos, à seleção dos fornecedores de serviços e de equipamentos, à gestão dos projetos, à realização de testes funcionais, operacionais, de segurança e de usabilidade, à entrada em produção destes sistemas e equipamentos, à contratação do suporte e manutenção - leva à inevitável conclusão de serem milhares as diferentes fases acima mencionadas a executar em poucos anos, cada uma exigindo quadros qualificados quer na Administração Pública quer no mercado fornecedor dos serviços e dos sistemas a adquirir.
Ora não existe disponível esta imensidão de quadros especializados!
Ainda não vi nenhuma das múltiplas Comissões de Acompanhamento dos vários PRR tomar consciência desta crua evidência e a pronunciar-se publicamente sobre a impossibilidade se se conseguirem executar a miríade de programas prometidos ou até contratualizados com Bruxelas, para serem executados no PRR.
Eu afirmo aqui hoje, publicamente, que "O rei vai nu"! Não acreditando que por detrás desta "fuga à realidade" por parte dos responsáveis políticos e dos dirigentes da AP esteja qualquer tipo de má vontade ou intenção de enganar o povo português, tenho de concluir que reina a inconsciência coletiva por parte destes, a qual, aliada à fé na Virgem de Fátima, justifica o habitual "empurrar com a barriga" e esperar que no final a gente se safe.
Portugal merece mais e melhor governação!
*Professor catedrático distinto jubilado do IST e fundador e investigador emérito do INESC
