De todas as vezes que somos convocados para uma resposta urgente e coletiva, como a que agora se impõe em resultado das intempéries, confrontamo-nos com a proverbial inépcia do Estado para agilizar procedimentos. O equilíbrio entre expectativas privadas e obrigações públicas é sempre complexo, ainda para mais num contexto em que os problemas - e as contas - se avolumam todos os dias. Espera-se, por isso, clareza e pragmatismo nas decisões. O "grande programa de recuperação e resiliência" anunciado pelo primeiro-ministro para reconstruir o país será tão mais eficaz e abrangente quanto menos o Governo atrapalhar. A experiência acumulada na gestão de crises é tudo menos tranquilizadora. O Estado tem de ser o motor de arranque e o facilitador. Depois, é preciso atirar dinheiro e recursos em força para cima desta tragédia nacional e encarar a dívida pública e os impactos no défice como males necessários. Para acudir a todos os portugueses aflitos, não podemos acudir aos ditames da inflexibilidade orçamental de Bruxelas. É esse tipo de liderança que também esperamos de Luís Montenegro. Para isso, o Estado tem de delegar o esforço nos poderes intermédios. Envolver os autarcas, as comissões de coordenação, as comunidades intermunicipais, mas fazendo-o com lealdade, e não como tem acontecido com a descentralização de competências, em que se exige este mundo e o outro sem fazer acompanhar a estratégia de recursos e meios financeiros. Para agir ao nível local, é preciso fazer chegar os cheques aos locais. Até porque, na verdade, aquilo a que vamos assistir, como em tantas outras ocasiões, é que será o país real, o mesmo que está ainda aturdido, a reerguer-se sozinho.
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