Escrevo nestas vésperas com o cuidado de quem acende uma luz pequena num mundo demasiado escuro. Gostaria que fossem palavras de calor, mas este ano elas chegam carregadas de inquietação. Amanhã é a noite de Natal. A noite que desejamos quente, próxima, humana. E, no entanto, neste Natal de 2025, milhões de pessoas estarão sem casa, sem família e sem mesa. Crianças que crescem em cenários de guerra, na Ucrânia, em Gaza e em tantos outros territórios devastados, aprendendo demasiado cedo o significado da perda e da desigualdade, vivendo em acampamentos em trânsito, empurradas de fronteira em fronteira, à procura de novas cidades, de novos lugares para habitar. E enquanto isso acontece noutros lugares do Mundo, também aqui, nas cidades onde ainda há luz, mesas postas e ruas iluminadas, somos chamados a escolher que Natal queremos viver. Porque o sofrimento distante não nos isenta da responsabilidade próxima, nem a abundância nos deve afastar de olhar para as nossas ruas e ver se todos vão ter mesa. É nesse intervalo entre o que acontece longe e o que vivemos perto que o Natal se constrói. Que pelas ruas ecoem sons de Natal, calor e afetos. Que as praças, bancos de jardim e cafés voltem a ser cenário de amor pelo próximo. Que as pessoas caminhem e se cumprimentem. Que as crianças voltem a valorizar os brinquedos simples criados à mão no chão da rua, e que a cidade seja novamente espaço de pertença. Amanhã é a noite de Natal. Que a cidade seja abrigo e não exclusão. Que seja mesa e não ausência. Que seja encontro e não fronteira. Porque nenhuma noite é verdadeiramente de Natal enquanto as ruas não puderem ser Natal para todos.
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