Assistimos a uma fase embaraçosa de um relacionamento: o momento em que olhamos o casal à distância e pensamos que a coisa está feia. Envergonhados, acalmamos a nossa consciência considerando que nada podemos fazer, porque entre eleitor e candidato não se mete a colher. São coisas lá deles.
Na verdade, são coisas lá nossas, porque André Ventura e o eleitorado chegaram a um ponto estranho do enamoramento, o estranho momento em que a paixão substitui a realidade; a loucura a dois de alguns casais, que se iludem um ao outro, ganhando os mesmos vícios, entusiasmos e manias.
Já escrevi que os eleitores do Chega bem podem votar a partir do descontentamento legítimo, da frustração quanto à saúde, à habitação e aos baixos salários, bem podem votar por causa da sensação de que foram traídos e de que ninguém os ouve. É sempre possível arranjar boas razões para votar erradamente num homem providencial que diz as verdades.
Acontece que este "dizer as verdades" implica mentir. Implica que qualquer político, excepto Ventura, seja necessariamente a personificação do oposto, seja de alto a baixo uma encarnação do sistema, o cabecilha de um grupo de malfeitores contra os quais o nosso herói tem de lutar. E qualquer pessoa que se disponha a pensar diferente dele, a mesma coisa - um avençado do sistema, um produto acabado dos chamados cinquenta anos de bandalheira.
São tantas as mentiras neste dizer as verdades, a começar pela ideia de que a Terceira República representa cinquenta anos de podridão, que até o eleitor mais fiel, nesta nova fase presidencial do relacionamento, tem cada vez menos motivos certos para votar errado. O tempo passa e até para eles - os enamorados - se vai tornando evidente que tudo é uma grande ilusão: a candidatura a presidente de alguém que sempre quis ser primeiro-ministro, a pureza antissistema, o ataque sem escrúpulos aos adversários, o populismo aberrante, as contradições internas no partido, os casos de polícia, a desordem parlamentar, enfim - essa coisa desconfortável chamada realidade.
A prestação de Ventura nos debates, sobretudo a ordinarice que foi o confronto com Catarina Martins, prova que está inseguro. Temendo que os eleitores finalmente se desiludam, faz o que fazem os amantes para manter a paixão: seduz com todas as qualidades. Claro que, no caso dele, as qualidades são defeitos: para chegar à segunda volta, Ventura berra, interrompe, difama, ataca as minorias, espezinha os imigrantes, atira papéis, evoca conspirações vagas, ridiculariza, não condena suspeitos de tráfico humano, conjura quantos Salazares forem precisos - monta um número que espanta e envergonha qualquer pessoa que não esteja no relacionamento.
E em cada prestação, como acontece nestes casos de emoção, faz várias juras de amor, declara-se aos eleitores: fiquem comigo, não fujam - diz ele -, "porque o meu sentido de Estado é amar demasiado Portugal".

