Aveiro é uma cidade aplanada, voltada para a água, com uma excelente relação com a natureza. E resiliente como poucas, desde logo face aos graves problemas associados a essa relação. Entre 1575 e o princípio do século XIX, sofreu com a entrada de água do mar nos campos agrícolas, o assoreamento e a dificuldade de navegação. Em 1756, as mudanças do local da barra redundaram no seu fecho completo, com inundações e estagnação das águas junto à cidade, crises na produção de sal e epidemias. De acordo com Jorge Arroteia, a população passou de 10 000 habitantes em finais do século XVII para apenas 3500, noventa anos depois.
Graças ao apoio de D. José I, ao sacrifício da pedra da sua muralha na proteção da barra (em 1808) e à decisão da linha de comboio Porto-Lisboa passar em Aveiro e aí ter uma estação (1864), a cidade recuperou, industrializou-se e prosperou.
Mais recentemente, tem sido essencial a presença da universidade, de várias empresas e do turismo, com uma aposta ganha na reabilitação e na mobilidade suave, com ruas pedonais e o primeiro sistema de bicicletas partilhadas em Portugal.
Infelizmente, a cidade parece que andou para trás. Há os "very typical" moliceiros a motor e os "pedintes de viagens" na rua; arrancaram-se árvores no belo bairro de Alboi e os bancos, desconfortáveis, estão sem sombra, em ruas largas que não servem para nada. Pasmei-me com o esventramento do Rossio para colocar um parque automóvel, quando se sabe que o estacionamento deve ficar na margem da cidade, para evitar carros no centro. E entristeceu-me a eliminação de árvores e lugar central para bicicletas na Avenida Lourenço Peixinho, transformada em "autoestrada" de 4 faixas.
É pena. Ainda que nada seja tão grave como o que a cidade já passou. E Aveiro é resiliente!
* Geógrafo e professor da Universidade do Porto

