A novela distópica que tem Portugal como cenário conheceu esta semana mais um episódio, centrado no julgamento que opõe os “Anjos” à humorista Joana Marques. Questionar o autor das piadas pelos seus efeitos pode ser encarado como primeiro passo para castrar todo o tipo de criação artística. Um dia destes, estaremos a queimar livros sem darmos conta. Como se trata de uma novela, talvez antes o guionista resolva acrescentar um episódio sobre o partido que processa alguém pelo mau resultado nas eleições. Não é assim tão inverosímil, porque o Chega já se queixou à Comissão Nacional de Eleições por Ricardo Araújo Pereira não entrevistar André Ventura, achando-se no direito de controlar a agenda dos programas de entretenimento. De volta à trama judicial, retenho-me no depoimento dos empresários que cancelaram contratos com a banda por causa do impacto da sátira de Joana Marques. Fico surpreendido. Por que razão não terá passado pelas cabeças bem penteadas dos irmãos Rosado processar as empresas em causa, em vez de arrolar os patrões como testemunhas? Parece-me bastante razoável encontrar matéria de facto para condenar uma entidade que rasga um acordo em função das reações do público a uma piada. Os artistas, no entanto, preferiram reparar a dignidade e o acne com aquilo que entendo como uma tentativa de ataque à liberdade de expressão. Nas décadas de 1970 e 1980, José Vilhena e Herman José foram cancelados por causa de criações humorísticas. Sendo certo que todos os tempos têm os seus demónios, seria suposto estes já estarem enterrados.
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