Anúncios sem fronteiras (publicités sans frontières)
Há poucas semanas foi noticiado o acordo entre a Federação Portuguesa de Futebol e a corretora VT Markets. À primeira vista, uma notícia banal, não fosse a empresa carecer de licença para operar em Portugal. Ainda assim, mantinha uma página em português, acompanhada de um aviso sobre essa ausência e os riscos da plataforma. Acrescente-se que, segundo a imprensa, a VT Markets consta das listas de alerta de vários reguladores europeus. Este contrato foi, entretanto, cessado.
Este caso tem a agravante de envolver uma entidade percecionada como representante de Portugal - embora seja "uma pessoa coletiva sem fins lucrativos, de utilidade pública, privada". Mas não é um fenómeno novo. Nos últimos anos, multiplicaram-se casos semelhantes, com o patrocínio de clubes como Crystal Palace, Everton, Nottingham Forest e Leicester City por empresas de apostas online sem licença para operar no Reino Unido, por exemplo.
Dando-lhes o benefício da dúvida e sem confundir apostas com serviços financeiros, o ponto é outro: empresas com mercados de massa procuram visibilidade global. Os grandes palcos são vitrinas internacionais e a lógica territorial perde força. O objetivo já não é falar para locais, mas para quem vê em qualquer parte do Mundo.
Até os patrocínios públicos seguem esta lógica. O patrocínio da Câmara de Barcelos ao Gil Vicente, na época de 2022/2023, quando o clube participou na Liga Conferência, colocou Barcelos na montra internacional. Um município, longe da notoriedade de Porto ou de Braga, ganhou exposição internacional. Para muitos adeptos europeus, Barcelos pode ter sido descoberto pelo futebol. Mesmo clubes como Leixões e Covilhã seguem esta lógica, ainda que numa escala nacional e com outro propósito: atrair visitantes de outras regiões e combater a sazonalidade turística. No fundo, o turismo também é um mercado de massa: não se trata de falar para locais, mas para um vasto número de potenciais visitantes.
Talvez esta não seja uma lógica nova, mas uma tendência que se intensificará nos grandes eventos desportivos: patrocínios cada vez mais voltados para públicos além do mercado local. A publicidade e o acesso são globais, enquanto a regulação e a supervisão permanecem nacionais na forma, ainda que crescentemente coordenadas à escala internacional. É provável que estas tensões continuem a multiplicar-se. Mas não deve valer tudo. Não confundamos a necessidade de competir com práticas gananciosas que ignoram regras e responsabilidade.

