Num país que sonha com a descarbonização e a troca de combustíveis fósseis por energia amiga do Ambiente, as consequências calamitosas da tempestade Kristin são um choque violento de realidade. O paradigma da descarbonização em Portugal assenta alicerces na eletrificação da sociedade, desde os transportes ao trabalho e às habitações. O apagão de 28 de abril de 2025 e, agora, os efeitos da última tempestade denunciam uma fraca resiliência do sistema elétrico nacional. Não pode pedir-se ao consumidor e ao empresário que troquem o combustível poluente e coloquem todos os ovos no mesmo cesto - aqui o cesto será o da eletrificação -, na certeza de que se houver - e haverá novos fenómenos extremos, mas não imprevisíveis - deixará de ter luz, água, aquecimento... E não será apenas por umas horas, mas por dias, semanas... Embora a força da Kristin não tenha eco na memória nacional, há anos que se repetem as advertências científicas para a escalada da frequência e da fúria de fenómenos meteorológicos e para o imperativo de adaptação do território para resistir às violentas depressões e tempestades. Não é a primeira vez que milhares de portugueses ficam às escuras com a passagem de ventos e de chuva intensos. E as contas das seguradoras e do Fundo de Emergência Municipal, cada vez mais insuficiente para cobrir elevados prejuízos, revelam que neste capítulo não há surpresas. Portugal tem feito pouco. Com menos quilómetros quadrados do que Espanha ou Itália, assinala a proeza de possuir só 20% da rede elétrica enterrada. Nesses países, três a cinco vezes maiores, as redes subterrâneas são mais do dobro e, ainda assim, ficam-se por uns meros 45%. "Temos de pensar a nossa rede de uma forma diferente", admitiu a ministra do Ambiente. Não temos de pensar, temos de fazer...
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