
A crise do comboio de tempestades tem de nos acordar. Não é um episódio isolado nem um capricho da natureza. É o futuro a acontecer agora. As alterações climáticas vieram para ficar e continuarão a provocar danos irreparáveis se não agirmos já.
Durante anos tratámos as emissões como um problema difuso. Mas os números são claros: até há pouco tempo, cerca de um terço tinha origem nos transportes. Enquanto os setores doméstico e industrial reduziram a sua pegada, a mobilidade acelerou. Aumentaram os carros, os voos e os navios. Terra, ar e mar. Somos um planeta inteiro a criar deslocações. Mais turismo. Mais trânsito. Mais carbono.
Gerir mobilidade sem critério significa combustíveis fósseis queimados. Mais pressão sobre o sistema climático. E o resultado está à vista: tempestades violentas, cheias repentinas, ondas de calor sufocantes, fenómenos extremos cada vez menos excecionais.
O território reage. O clima responde. E nós? Continuamos a agir como se nada estivesse a mudar. Isto é inaceitável.
Hoje urge planear. Urge projetar. Urge usar a engenharia, a arquitetura, o urbanismo, a geologia e a ecologia na construção dos novos sistemas urbanos. Precisamos de rigor técnico, do regresso às especialidades, agora articuladas. As cidades têm de integrar o ciclo da água, a infiltração dos solos, a retenção e desaceleração das cheias súbitas. Não podemos continuar a permitir construção em zonas vulneráveis, frentes ribeirinhas e marítimas, vertentes instáveis ou habitações dispersas nas florestas. E por muito que custe, temos de retirar, de forma faseada, mas determinada, pessoas das áreas de risco.
Esta crise é um aviso. Aproveitemo-la para fazer melhor.
