O falecimento do rei Abdoulhah ocorreu numa conjuntura particularmente tensa para o reino saudita. A sua imediata substituição pelo herdeiro designado conferiram à transição uma imagem de normalidade institucional. O novo monarca enfrenta múltiplos desafios internos e externos. Vai governar uma sociedade maioritariamente conservadora, mas em que existem franjas antagónicas muito ativas.
Numa sociedade dominada pelo wahhabismo - versão conservadora e puritana do sunismo - existem dois movimentos minoritários que procuram alterar a situação. Os salafistas, extremistas que pregam a "guerra santa" e a eliminação da influência ocidental, e os reformistas, defensores de maior liberdade política e religiosa e da concessão de mais direitos às mulheres. Existe, ainda, o problema da minoria xiita dominante na província oriental (a grande zona petrolífera).
A Arábia Saudita enfrenta ameaças resultantes da expansão da influência do seu arqui-inimigo: o Irão. Ao programa nuclear iraniano, à prevalência dos xiitas no Governo de Bagdad e à revolta da maioria xiita no Bahrain, somou-se, nos finais de janeiro, a ocupação da capital do Iémen, Sana, pelos rebeldes xiitas houthis, colocando em risco a sua fronteira sul.
O reino saudita enfrenta, também, ameaças oriundas do campo sunita. A mais antiga provém da al-Qaeda da Península Arábica (AQAP), cuja bases operacionais se situam no Iémen. O aparecimento do Estado Islâmico (EI), que integra cerca de 2500 combatentes sauditas, constitui uma ameaça à sua fronteira noroeste.
As mudanças operadas pelo rei Salman nos postos chaves políticos e religiosos revelam quatro linhas fundamentais de orientação: congelar a moderada abertura política e religiosa promovida pelo seu antecessor; manter a política de baixo preço do petróleo por razões económicas (inviabilizar os investimentos na exploração do petróleo de xisto, nas energias alternativas e nos automóveis elétricos) e geopolíticas (sufocar financeiramente o Irão e a Rússia, os grandes sustentáculos do regime sírio, e reduzir as receitas do EI) e, finalmente, apostar em políticas sociais destinadas aos setores mais desfavorecidos.
A nomeação do filho preferido para ministro da Defesa e a substituição do conselheiro de Segurança Nacional e do chefe dos serviços secretos revelam uma grande preocupação do novo rei com a segurança interna e as ameaças externas. E não será de excluir que durante a visita do presidente Obama tenham sido afinadas estratégias destinadas a combater o EI e a restabelecer um estado unificado no Iémen. Nalguns meios influentes circulam com insistência informações sobre uma próxima intervenção militar saudita em apoio de líderes da maioria sunita do Iémen.
HISTORIADOR
