Mimicat venceu o Festival da Canção, numa edição em que chegaram à final três candidatos selecionados por "livre submissão", ou seja, artistas que não foram convidados a participar por já terem reconhecimento, mas que se inscreveram por sua iniciativa e foram escolhidos, pela qualidade da sua canção, entre mais de seiscentas. Desses três candidatos, dois ficaram em primeiro e em segundo lugar (tanto nos votos do júri como do público) e isso é muito significativo se pensarmos que, mais do que nunca, o que rege a indústria musical são os números, e que quem passa na rádio, quem é escolhido para as programações de auditórios e festivais, quem ganha espaço nos média tradicionais e quem consegue furar a ditadura dos algoritmos é quem tem muitos seguidores, streamings e visualizações.
É, portanto, muito reconfortante confirmar que as canções vencem porque o público gosta delas e não porque o seu intérprete tem um séquito de admiradores. O que este Festival da Canção provou é que se uma canção é suficientemente forte, mesmo que seja de uma artista desconhecido do grande público, pode ultrapassar em votações e adesão quem têm mais popularidade e está no topo das tabelas de streamings ou na lista dos músicos com mais airplay de rádio. Ora, num festival em que fica clara a qualidade e a diversidade da música portuguesa, fica patente também que, no fim de contas, o que importa são as canções e que se for dada uma oportunidade a quem tem mérito, o público move-se para premiá-lo.
Muito importante é também acrescentar (tal como alertou no Festival, a terceira candidata por livre submissão - Inês Apenas) que a recente diminuição da quota de música portuguesa que passa nas rádios nacionais (de 30% para 25%) é uma dura facada para os artistas. Os cinco por cento "ganhos" para ajudar a mitigar os efeitos da pandemia no setor foram de novo retirados, com a desculpa de que os espetáculos ao vivo voltaram e que, portanto, deve ser reposta a "normalidade".
O grande problema é que se a "normalidade" já era muito difícil para a generalidade dos músicos portugueses antes da pandemia, depois de termos ficado circunscritos ao espaço das redes sociais para divulgar o nosso trabalho durante dois anos, a ditadura do algoritmo instalou-se como o único diapasão da "meritocracia" na indústria. Já para não dizer que os espaços de divulgação de cultura na imprensa e na televisão mingaram drasticamente. Por tudo isto, precisamos, mais do que nunca, que a rádio seja uma aliada na promoção da diversidade da música portuguesa, dando-lhe espaço e montra, com playlists para todos os estilos. Não apenas para não se vergar à mesmice do algoritmo e sua ditadura dos números, mas para ajudar os artistas, servindo o público, que prova (sempre que pode) que gosta da música pelo que ela é (e não pelos números de quem a faz).
*Música

