Um inverno digno desse nome, para além a chuva em abundância, está também a ser marcado por fenómenos climáticos extremos, colocando no centro da discussão a forma como as crises são geridas e o dilema da dialética entre a realidade e a sua perceção.
No passado dia 28 de janeiro, um fortíssimo temporal, associado à depressão Kristin, fustigou a Zona Centro do país, sobretudo o distrito de Leiria, com ventos intensos, nalguns casos próximos dos 200 km/h, causando danos muito significativos, incluindo quedas de postes de alta tensão, estruturas diversas, árvores, destruição de telhados, casas e armazéns. Dois dias depois passei por esta área geográfica, percorrendo o caminho entre a A17 e a A1, pelo nó de Leiria-Norte, momento em que pude testemunhar um grau de destruição brutal, de que não tenho memória em eventos climatéricos antecedentes. Tendo esta destruição ocorrido durante a madrugada, parece muito estranho que algumas horas mais tarde o líder do Governo, pessoa que tenho por socialmente atenta e responsável, não tivesse ainda a noção da gravidade absoluta do que tinha acontecido naquela área geográfica. Ficou evidente que algo falhou durante algumas horas no sistema/modelo de comunicação de crise, o que a então ministra da Administração Interna veio mais tarde a referir de forma menos feliz. Destes primeiros momentos após o temporal fica, de novo, a dúvida sobre a eficácia do sistema de rede de emergência e segurança.
Mal refeitos do evento climático extremo, fomos confrontados com chuvas torrenciais, que colocaram à prova todo o sistema de gestão integrada de caudais. Os canais e diques do rio Mondego, na zona de Coimbra e Montemor-o-Velho, tornaram-se então o foco principal das notícias, com os canais televisivos a expor sem filtros e, sempre que possível, em direto, o sofrimento das populações mais atingidas. Mas, o mais espantoso é que pouco ou nada se disse sobre o mérito de quem teve a lucidez, e coragem, de proceder ao corte da A1 de forma antecipada e prudente, com o que terá muito provavelmente evitado uma catástrofe de proporções inimagináveis. E sobre este facto, notável e positivo, pairou um silêncio comprometedor.
A gestão de crises está hoje muito mais ligada às perceções do que às realidades, o que dificulta sobremaneira a tarefa de quem nos comanda, seja no Governo ou na gestão dos sistemas de segurança.

