As ruas deixaram de ser ruas. Tornaram-se campos de destroços. Árvores arrancadas pela raiz como fósforos, telhados rasgados, carros presos entre lama e ramos, fios no chão, água por todo o lado. O cheiro a madeira partida, a terra molhada, o medo. Dentro das casas, o desastre íntimo: colchões encharcados, fotografias coladas ao chão, brinquedos perdidos, o silêncio de quem já chorou tudo.
No meio deste caos, aparecem os primeiros soldados. Autarcas que tentam chegar a todos, sabendo que o tempo nunca chega para tudo. Coordenam, decidem, improvisam. Carregam nos ombros a angústia de cada pedido e a responsabilidade de não deixar ninguém para trás.
Apoiados neles, lado a lado, os funcionários das autarquias. Proteção civil, obras, ação social, limpeza urbana, serviços técnicos. Homens e mulheres que não hesitam. Saem para o terreno quando ainda ninguém sabe por onde começar. Cortam árvores, desobstruem caminhos, limpam lama, montam abrigos, distribuem camas e alimentos, entram em casas destruídas para garantir que ninguém ficou esquecido.
Aqui não há política nem horários. Há gente a cuidar de gente. Conhecem o nome de cada um, histórias, fragilidades. Sabem quem vive sozinho, quem precisa de ajuda, são família.
Foi assim em Entre-os-Rios, em Pedrógão, na Covid. É assim agora, neste comboio de tempestades que mostrou, de forma brutal, que as alterações climáticas já chegaram e que a força da natureza ultrapassa tudo para o que o território foi preparado.
Quando os dias melhores regressarem, que esta memória não se apague. Até lá, fica um abraço profundo e grato a quem, no meio do caos, nunca virou costas às suas comunidades: os autarcas.

