Vou a um talho perto de casa, em Alcântara. Embora eu não perceba nada de carne excepto comê-la, acho que é bom, que só pode ser óptimo.
Por exemplo, aos sábados de manhã, impressiona-me a sabedoria de quem pede e a destreza de quem dá. Há quem se abasteça para a semana, para o mês, quem leve vários cortes, carnes tantas, para churrascadas de família e amigos. Pedem com propriedade o lombo, a maminha e a alcatra, explicam que preferem de uma maneira ou de outra, dizem que o mais novo gosta de pianinho e que o mais velho, coitado, é vegetariano.
"Olhe que disso aqui não temos...", responde o talhante mais velho enquanto passa as mãos pelo avental. E eu fico com a ideia de que, se fosse possível, ele, que é sabido de cortes há tantas décadas, usaria a faca para servir a melhor porção de uma alface gorda, uma alface coração de qualquer coisa, para agradar ao filho pecador do cliente.
Suponho que as normas de higiene lhes digam que depois do fecho, como eu já testemunhei, seja obrigatório lavar o talho de alto a baixo com mangueiradas.
Suponho que a luva de malha de aço, que dá aos homens o ar de cavaleiros medievais protegidos contra o inimigo, também seja obrigatória. Mas eles esforçam-se na higiene, tomaram como ponto de honra nunca deixar o mais íntimo vestígio de carne nos cantos, e esforçam-se também no trato, tomaram como ponto de honra nunca deixar o mais ínfimo vestígio de antipatia nos clientes. Nunca precisariam de títulos nobiliárquicos para atestar tamanha nobreza. Além disso, usam as luvas com tal desenvoltura, que as mãos são como pássaros numa gaiola.
Isto digo eu porque vejo. O mais velho - finíssimo na sua cota de malha -, talvez o proprietário, que emprega os filhos e não tarda os netos, explicou-me certa vez como escolher e preparar a carne para a minha filha então bebé.
No seu tempo, disse-me, fazia assim: pôs uma carne tenra no bloco de corte e partiu em quartos; desse modo, a peça prestava-se mais à sopa dos bebés. Olhava fixo para a carne e para o bloco, que, nesse momento, ao contrário de tantos outros, a faca quase não feriu. "As saudades", desabafou ao passar-me por cima do balcão o saco com a carne empacotada. Leve, nem cem gramas pesava. E eu vi-lhe na cara que as saudades são fome que nunca pode ser verdadeiramente saciada.
E também percebi que ele e o bloco de polietileno são feitos do mesmo material, tanto um como o outro gastos - mas ambos alimentaram muita gente.
O autor escreve segundo a antiga ortografia

