Pela voz de Miguel Relvas, em Junho passado, o PSD já tinha garantido que carregaria o CDS para o Governo ainda que obtivesse maioria absoluta em eventuais eleições legislativas antecipadas. Ao tempo, neste jornal, expressei as minhas dúvidas. Desde logo, porque "Paulo Portas não é um aliado recomendável para coisa nenhuma." Acrescentei, ainda, que "o seu discurso político, de tão 'abonecadamente' repisado, enfada mesmo aqueles capazes de assentir com o seu conteúdo, o seu partido é um peso-pluma nas autarquias locais, magro de quadros e de influência em toda a parte." Essa triste realidade do CDS mantém-se intacta e não vislumbro razões capazes de me fazer mudar de opinião.
Contudo, as questões que presidem à reafirmação do anúncio de o PSD se coligar com o partido de Paulo Portas parecem-me óbvias e tacticamente bem alicerçadas. Nesse sentido, a ideia de um "pacto de não-agressão" entre os dois partidos, entretanto noticiada, aparentemente alberga alguma sensatez embora não seja imprescindível - basta recordar que na campanha eleitoral das legislativas de 2002, Durão Barroso e Paulo Portas digladiaram-se com a reconhecida elegância e compostura de dois gatos a disputarem o mesmo espaço vital dentro de um saco de serapilheira, o que não impediu que se entabulassem negociações para a formação de um Governo comum algumas horas após se conhecerem os resultados eleitorais. Ou seja, o anúncio de uma futura coligação pós-eleitoral não implica qualquer "pacto de não-agressão" pré-eleitoral.
A não ser que a intenção não seja, afinal, a declarada mas antes consubstancie a possibilidade de uma nova AD, isto é, consista num acto preparatório de uma coligação entre os dois partidos que concorra em futuras eleições legislativas.
Tenho algumas dificuldades com essa hipótese. Tal como compreendo mas, ainda assim, descreio bastante das vantagens para Portugal de um futuro Governo de coligação entre o PSD e este CDS. Não tanto por razões ideológicas (tentar discernir os estados de alma ideológicos dos dois partidos é uma tarefa racionalmente impossível, já que supera as naturais limitações da Ciência Política e alastra para os ininteligíveis domínios da astrologia ou da adivinhação mediante os feitios das borras de café), mas, sobretudo, por julgar que o país necessita de rupturas essenciais e manifestas com os procedimentos e as lógicas que nos têm desgovernado nas duas últimas décadas e que nos trouxeram até à desesperança em que residimos.
O Governo que se seguir à presente tragédia socrática tem de ser e afirmar a diferença em tudo o que queira fazer - não apenas em relação aos seis anos anteriores mas, também, face aos últimos tempos do cavaquismo, a todo o pantanoso período de Guterres, bem como aos nefastos três anos de Barroso e Santana Lopes. Ou seja, se quiser ficar na história pelos bons motivos e não se limitar a uma banal e inconsequente continuação dos maus episódios anteriores, terá de romper com as múltiplas variantes da "Tradição de Mau Governo" que nos tem assolado sob diversas embalagens. O que significa que um futuro executivo PSD-CDS terá de desmentir peremptoriamente a lógica, a história e os resultados, da última vez que esses partidos governaram em conjunto.
Tal não parece ser possível com o CDS como ele é e como ele está. O CDS nunca assumiu a desgraça da sua governação entre 2002 e 2005. Ao contrário do PSD de Passos Coelho, o CDS não se soube reinventar após a derrota de 2005 (o incidente Ribeiro e Castro provou não ser de levar a sério). Pouco renovou e nada corrigiu. Os seus dirigentes são praticamente os mesmos - o CDS tem um sério problema de massa crítica e de qualidade dos seus quadros. E todos os discípulos de Portas parecem estar ansiosos em reincidir nos erros que foram cometidos aquando da sua estada no poder.
Se a táctica política aconselha que o PSD se alie ao CDS, ao invés, a estratégia necessária para o país determina que o PSD não recaia em experiências falhadas com parceiros incapazes de se emendarem. Sob pena de se repetir aquilo que já foi feito...
