As eleições autárquicas do Porto revestem-se de caraterísticas que as distinguem de (quase) todas as outras a nível nacional. De facto, os eleitores do Porto estão perante personalidades, programas e projetos, que obrigam a redobrada reflexão, seja pela dificuldade de os catalogar ou enquadrar (conceptualmente, politicamente e, até, ideologicamente), seja pelas expetativas difusas que geram.
É, pois, para este panorama que me proponho olhar, sempre partindo de uma base menos neutra ou distante, atento o meu envolvimento numa das candidaturas. Mas, para aquilatar da justeza da análise aqui vertida, estão os leitores do JN certamente bem preparados.
Começando pelos extremos, que são, por natureza, mais radicais e claros nos seus programas e propósitos: o BE e a CDU.
Se, no BE, o estilo que sobra é o de João Teixeira Lopes, pouco se alcança de verdadeiramente novo, desde logo pela chegada tardia do candidato a esta eleição. Creio, até, com respeito pelo percurso e estilo de Teixeira Lopes, que bem mais efetivo seria o requinte sereno, sincopado mas duro e acutilante de João Semedo, primeira escolha, traída por razões de saúde, a quem aprendi a respeitar, nas diferenças óbvias que pude observar na Assembleia da República.
A CDU cerra fileiras, garante o seu eleitorado-base e aposta em Ilda Figueiredo, figura conhecida de todos e cuja agressividade e diálogo difícil se foram perdendo com o tempo, pelo menos a avaliar pelo debate da TVI24. Os militantes destes partidos estarão certamente confortáveis (mesmo que, não entusiasmados) com estas soluções.
Deixando para o final o meu PSD, passamos ao paradoxo político, só visível e só possível no Porto, neste Porto "ponto" (final) a que nos conduziram.
Ajudem-me. Os militantes do CDS que defendem uma política e uma ideologia fundadas na democracia cristã e no modelo de sociedade que as mesmas pressupõem - e que estiveram com Rui Rio durante 12 anos e Passos Coelho durante 5 anos - votam em quem? Ora, se esta pergunta tem resposta rápida e triunfante, resta responder à pergunta que se segue: E vão ter direito a ver na governação da sua cidade que modelo, exatamente?
Terão Rui Moreira com CDS e PS? Terão Moreira com CDS e PSD? É indiferente quem vai governar e com quem vai governar? O resultado dos últimos quatro anos não terá demonstrado que Rui Moreira usou o PSD e CDS para vencer a batalha eleitoral, mas já para ajudar a governar a cidade, a maior força política da Câmara do Porto foi o PS?
E os socialistas do Porto, úteis mas descartáveis, que tarde demais perceberam que o seu apoio e presença só eram e serão desejados e valorizados depois das "fotografias de família" eleitorais?
O que levará um socialista do Porto a votar em Manuel Pizarro e na candidatura socialista, sozinha, autónoma e orgulhosamente socialista, "à moda antiga"?
Se a candidatura socialista, "abandonada no altar" a seis meses do "casamento" eleitoral, afirma mansamente que não descarta renovar a coligação pós-eleitoral de 2013, o que pode afinal esperar o militante socialista? Dito de outra forma, os socialistas que votam no "punho socialista" já foram avisados de que tudo não passa de "show off" e que, passada a passarela eleitoral, teremos de novo a confusão de personalidades, políticas e inconsequências que nos trouxe até aqui?
Tudo isto é injusto e nefasto. Os portuenses deviam saber antecipadamente - e oxalá isso venha a acontecer, como exigência de transparência democrática - quais serão, verdadeiramente, os projetos e protagonistas a quem entregarão o voto no dia 1 de outubro, mas também nos restantes quatro anos! Sem surpresas, sem embustes, com clareza e desassombro.
O mesmo reclamo para o PSD. O melhor serviço que poderemos prestar à cidade e aos eleitores é apresentar um programa claro, concreto, de raiz social-democrata, que em nenhum momento deixe margem para dúvidas ou interrogações sobre o modelo de cidade e de sociedade em que acreditamos.
E quanto a arranjos, negócios ou casamentos de conveniência, partilho da opinião de Álvaro Almeida, nosso candidato: se o PSD não ganhar, deve estar na oposição, sem pelouros, honrando o seu programa e contribuindo para as melhores soluções na oposição, de forma atenta, permanente e consequente, nas críticas, mas também nas propostas alternativas.
Todas estas questões têm de ser respondidas antes das eleições. E, antes das eleições, é agora!
DEPUTADO DO PSD
