Lidas as explicações dos intervenientes, é impossível não esboçarmos um sorriso amarelo: há 11 candidatos válidos às eleições presidenciais, mas nos boletins de voto vão surgir 14 nomes. A culpa é da lei, de quem voltou a deixar tudo nas mãos de instituições adormecidas, mas é, sobretudo, de um Estado bolorento para o qual os partidos só acordam quando já não há volta a dar. Não estando ferida de ilegalidade, a eleição do próximo dia 18 está carregadinha de leviandade.
Vale a pena sumarizar esta novela: o Tribunal Constitucional validou, a 18 de dezembro, as 14 candidaturas recebidas, procedendo ao sorteio no dia seguinte. Por conterem irregularidades, três dos proponentes foram notificados para as corrigirem até 22 de dezembro. Nenhum o fez. No dia seguinte, o TC decidiu "sobre a admissão e a rejeição das candidaturas", mas ainda deu a oportunidade aos visados para poderem reclamar no prazo de 24 horas. Dois deles fizeram-no. E com isso tudo ficou em suspenso até ontem. Tudo, não, porque entretanto (a 24 de dezembro) o Ministério da Administração Interna já tinha mandado imprimir os 13 milhões de boletins e as 33 mil matrizes de braille, de forma a poder assegurar o voto dos eleitores reclusos, internados e a viver no estrangeiro.
Tribunal Constitucional, Comissão Nacional de Eleições e Ministério da Administração Interna desculpam-se com a lei e com os prazos nela determinados. Mas esta não é a primeira vez, nos últimos anos, que somos confrontados com bizarrias deste género sempre que há eleições. Um país que anda há meses a discutir presidenciais, que teve 28 debates televisivos, não pode permitir um golpe tão canhestro à imagem da democracia participativa. Esta trapalhada transporta-nos para o tempo do chumbo, em que imprimir tinta em papel era uma empreitada ciclópica. Em 2026, não é aceitável que não sejam criadas as condições mínimas para que os boletins sejam impressos apenas a partir do dia em que as candidaturas estão definitivamente aprovadas, assim se evitando um óbvio desperdício de votos. Mude-se a lei, alarguem-se os prazos, faça-se alguma coisa, mas não se deixe perpetuar esta fraude lamentável.

