Bom ano, muita saúde e... não se irrite. Entre os tradicionais votos de felicidade, prosperidade e paz que costumamos endereçar nesta época festiva, talvez o desejo mais ajustado aos tempos digitais seja mesmo o de resistir à irritação. E, caro leitor, não será fácil.
A própria Universidade de Oxford, famosa pelos seus conceituados dicionários, escolheu "ragebait" como a expressão que marcou o ano que terminou. O termo, traduzido literalmente como "isca de raiva", refere-se a conteúdos online produzidos com o simples objetivo de provocar fúria ou indignação no utilizador. O presidente da Oxford Languages, Casper Grathwohl, explica bem o fenómeno: "Antes, a Internet queria os nossos cliques. Agora, quer a nossa raiva". Isto é, se até há pouco tempo a Internet prendia a nossa atenção e enganava-nos com clickbait, na ânsia de gerar visualizações, agora a estratégia passa por nos manter online a discutir. Quanto mais emocionados e zangados estivermos, mais alcance vamos gerar para as publicações que nos deixaram indignados. É que os tais algoritmos que não têm sentimentos (ainda) vivem agora das nossas emoções.
Portanto, vale a pena respirar fundo. E, numa altura em que vamos entrar em campanha eleitoral, respirar bem fundo as vezes que for preciso para não cairmos em técnicas de manipulação cuidadosamente elaboradas. Venham elas em forma de posts, stories ou reels.
As redes sociais vivem do instante, do choque e da raiva calculada. Já a um presidente da República pede-se visão e ponderação.
A verdadeira política exige mais do que 15 segundos de indignação.

