Burnout. Queimar. Esgotar. Um anglicismo que, a par do ketchup, tem encontrado na nossa língua um lugar de constante repetição e degustação. Se, por um lado, o conceito de burnout não está plasmado como doença nos manuais diagnósticos de Medicina, é repetido no discurso de cada um de nós como uma constatação óbvia das consequências da vida profissional na saúde mental do trabalhador.
Mas então, o que significa? A sua primeira utilização de relevo é encontrada num verso de Shakespeare: "She burn"d with love, as straw with fire flameth" (Ardeu de amor, como a palha em fogo inflama). Já na altura se associava o conceito à depleção de algo (amor, dedicação, energia), sendo retratado em várias personagens de obras literárias de autores de relevo (Thomas Mann, Graham Greene, entre outros). Posteriormente, foi utilizado para descrever o efeito do abuso crónico de drogas nos seus utilizadores, descrevendo o desgaste e inanição física, tendo, nos anos 70, surgido no vocabulário clínico americano.
Nessa altura, o fenómeno foi descrito pela observação do entorpecimento emocional gradual, perda de motivação, despersonalização e sensação de ineficácia por parte dos trabalhadores. O conceito foi estudado pela psicóloga Christina Maslach, que desenvolveu um dos questionários psicométricos mais utilizados a nível mundial para avaliar o burnout, primariamente detetado em profissionais do "cuidar", tais como profissionais de saúde, do setor social e policial.
A componente de entorpecimento e exaustão emocional revela-se na sensação subjetiva de desgaste das capacidades físicas e emocionais. A despersonalização traduz-se numa sensação de irrealidade e de distanciamento interpessoal, culminando muitas vezes na crença de inadequação ou incompetência para realizar a atividade profissional.
O florescer do termo burnout nesta altura não é aleatório. Os estudiosos associam-no a fatores específicos da sociedade americana dos anos 60/70. O idealismo pós-guerra e o embate frontal com a ineficácia das estratégias sociais adotadas culminaram no surgimento de sintomas ansiosos e depressivos motivados pela exaustão profissional. Para além do fator temporal, geograficamente verificou-se que o termo se espalhou nas diferentes sociedades por ordem cronológica crescente de desenvolvimento socioeconómico. Há quem considere que o burnout é uma resposta normal a uma situação anormal, ou seja, tendo em conta o impacto emocional associado à atividade laboral, o "normal" será ter respostas emocionais "não saudáveis". Esta "situação anormal" é muitas vezes imutável, o trabalhador não consegue controlar o ambiente onde trabalha, os colegas, a dinâmica laboral, o impacto que esta tem na sua vida pós-laboral, entre outras variáveis, colocando-o num labirinto sem sinal de saída. Perdido neste enredo kafkiano, é conduzido a uma sensação crónica de desesperança, levando a estratégias de gestão emocional mais ou menos adaptativas.
Instala-se uma certa sensação de anestesia, o estar sem estar. Ocorre um empobrecer do jardim das emoções, que se vai desvanecendo em tons de cinzento para nos proteger da intensidade emocional constante. Este estado, para além de conduzir o trabalhador a um estado "não produtivo", com aumento dos períodos de incapacidade para o trabalho, absentismo e perda de qualidade laboral, é acompanhado de consequências na saúde mental e física, levando a uma diminuição da qualidade de vida e a mortalidade precoce.
O primeiro desafio do burnout é a sua identificação. Este fenómeno é frequentemente entretido através de uma certa romantização do sacrifício. Se, por um lado, o sacrifício prevê um bem maior (de progressão, sucesso, etc.), a única certeza é a existência de um sacrificado. Construímos a nossa identidade a partir da visão que obtemos do mundo. Um mundo que cresce em função de objetivos sociais, económicos e políticos. Nesse crescimento coletivo, margens de lucro, frequências absolutas, relativas, índices e taxas de juro, perde-se o indivíduo. Perde-se a humanidade.
Neste combate conjunto, a entidade patronal não se pode esquecer de que quem ateou o fogo é o responsável principal do incêndio; culpar o terreno de nada serve.
Tal como nos incêndios, a prevenção é uma das formas mais eficazes de intervenção. É fundamental aprendermos a reconhecer as emoções no momento em que surgem, assim como os limites de que necessitamos. Quando esses limites forem ultrapassados, devemos dispor de estratégias de regulação bem definidas - não estratégias que nos anestesiem, mas que nos ajudem a reencontrar a serenidade para viver a realidade que escolhemos ou, em alternativa, a sustentar as decisões conscientes que nos conduzam às mudanças que consideremos necessárias.
Todos temos o direito de precisar de ajuda. Essa ajuda pode vir dos lugares mais diversos: família, amigos, colegas de trabalho e, quando necessário, ajuda clínica.
