Nada temei. Trump é um normal presidente norte-americano. Tal como tantos outros, quando foi preciso desviar a atenção de assuntos caseiros a correrem mal, avançou para mais um momento de hipocrisia, em que o direito internacional só é bom se coincidir com a pretensão dos EUA.
Se antes já era tarde, agora é completamente imperativo que a União Europeia tenha um plano para o enfrentar. O que impede que Caracas se repita em Bruxelas, com a desculpa da existência de um regime autocrático que limita a liberdade de expressão das empresas americanas? Ou na Gronelândia? Ou nos Açores? Ainda que com as devidas diferenças, é possível encontrar paralelos com a invasão da Ucrânia pela Rússia, ou uma possível invasão de Taiwan pela China. Moscovo e Pequim podem ter certas preocupações, mas, no fundo, até aplaudiram. Vai facilitar tanta coisa num futuro próximo.
Sob a capa de uma luta contra o narcotráfico, Trump quer o mesmo que Putin queria ao invadir a Ucrânia: recursos e influência. O Kremlin queria dominar a zona rica em indústria e minério e justificou o ataque com a minoria russófona e os nazis.
Trump quer o petróleo venezuelano, que considera que lhe foi roubado e desviado para a China, mas justifica com o tráfico de droga. É o mesmo que invadir Portugal para recuperar a alheira de Mirandela. Se a luta fosse mesmo contra a droga, Trump não teria perdoado o antigo presidente das Honduras, condenado pela justiça americana. Já se o problema é a democracia, a Casa Branca tem de se olhar ao espelho primeiro e depois começar a pensar em alguns aliados, como a Arábia Saudita.
"Business as usual" na Casa Branca (ou Mar-a-Lago) e resposta pífia, como sempre, em Portugal. Em Espanha, a declaração de Sánchez foi tão simples e certeira. Não era difícil. E já agora, uma palavra para Corina Machado. A Nobel da Paz que pediu esta invasão foi arredada de qualquer futuro plano para o país. Irónico.

